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| 19/09/2011 |
Nos olhos de quem vê
Se você me perguntar quando foi a primeira vez que nos vimos, não saberei dizer com precisão. É provável que tenha sido um daqueles encontros fortuitos que a vida nos reserva em momentos para os quais não estamos preparados. Se a pergunta for sobre onde foi, também não sei dizer, pois hoje, já passado algum tempo, a memória é falha. Pode ter sido em qualquer lugar. Mas afirmo: houve um primeiro encontro. Hoje, já premido pela deficiência nas recordações, imagino que talvez deva ter sido como nas outras vezes em que nos vimos. Se não for, terá sido algo bem parecido com o relatado nestas linhas.
Em algumas vezes ela já estava no local quando eu chegava. Tanto podia ficar e ser apreciada como poderia simplesmente ir-se. Em outras situações eu estava bem distraído quando ela se esgueirava e ficava parada até sua presença ser notada. Mas de algo tenho absoluta certeza: todos os encontros foram à noite. Ela era do tipo que dormia o dia todo e sentia-se livre nas trevas. Nunca soube exatamente como tratá-la, de modo que passei a chamá-la Dercy. Poderia ter lhe chamado de qualquer nome, mas este apenas surgiu-me, como uma inspiração. Coisa de momento, mas que marca uma relação. Mas, deixando de lado os encontros, ao menos temporariamente, é preciso descrevê-la, de forma que, a partir disso, vocês entendam o porquê de nossa atração por ela. Começaremos pelas pernas. Eram longas, fortes, bem proporcionadas de músculos, os quais podiam ser vistos e sentidos sobre a pele, e torneadas. Não que fossem grossas, pois eram até relativamente finas. Mas, ao vê-las qualquer um teria a certeza de estar diante de uma atleta e capaz de proezas. Só havia um fato a depor contra: os pés. Estes eram anormalmente grandes para seu corpo. Mas, afinal, ninguém é perfeito. Dercy tinha os braços eram bem proporcionados e também eram fortes, mas não tanto quanto as pernas. Se comparado com estas, poderiam até ser consideradas finas. Mas uma fêmea deste porte não pode ter bíceps muito desenvolvidos, sob pena de perder a elegância. E isso ela possuía de sobra. O corpo não apresentava os contornos e curvas, mas era proporcional e se mostrava ao primeiro olhar. Quando se sentia confortável, tinha por hábito assumir o que chamamos de posição fetal, com braços e pernas sob o corpo. A pele de Dercy era algo a parte. Era lisa e bela. Era um convite a um toque mais demorado e carinhoso. E não era somente sobre alguma parte, mas recobria o corpo todo. E ao contrário de outras, não se lhe via uma mancha ou protuberância. Era perfeita. A cabeça, bom a cabeça precisava ser analisada em partes. Primeiro é preciso dizer que era um pouco grande para o corpo, embora esta pequena desproporção não lhe alterasse a harmonia. O nariz era pequeno. A boca era grande. Se você não acha bonito uma boca grande, então a Daniela Cicarelli ‘não é pro seu bico’. Mas aqui chegamos, talvez, ao ponto mais expressivo de todo o corpo: os olhos. Estes eram também grandes e mostravam toda a sua doçura e de uma expressividade fantástica. Quando te encaravam, te faziam esquecer tudo. Enfim, Dercy era um belo conjunto, onde até mesmo aquilo que em outras era destoante, nela era beleza. Ao menos para mim. Agora, passados alguns anos, toda vez que entro no banheiro me lembro da pequena pereça que deslizava pelas paredes. Mesmo sendo tecnicamente um espécime anfíbio anuro, tinha a sua beleza. Ao menos para mim, pois a beleza nos olhos de quem vê.
Escrito por Régis às 23h46
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| 30/08/2011 |
Por que cassar, por que não cassar
Às vezes nos vemos diante de dilemas que, ao decidirmos por um ou outro lado sempre implicará em ferir algo ou alguém. No caso da política e seus desdobramentos é a mesma coisa. Este é caso quando está envolvida uma hipótese de cassação de parlamentar, como é o caso da deputada Jaqueline Roriz. Somente a título de esclarecimento, a deputada do PMN do Distrito Federal foi flagrada por uma câmera de vídeo recebendo dinheiro de um dos secretários do DF, no que se convencionou chamar ‘Mensalão do DEM’. Por conta destas imagens, colhidas em 2006 e somente divulgadas agora, foi aberto um processo de cassação por quebra do decoro parlamentar. É aqui que começa o problema. Quando da gravação, Jaqueline era deputada distrital do DF. Então, a suposta ‘divagação comportamental’ teria de ser apurada por aquela casa, pois os fatos seriam relacionados a uma suposta influência que a deputada teria naquela localidade. Mesmo sendo tráfico de influência, este tem de ser apurado na sua esfera. Mas, como a denúncia somente foi efetuada há pouco, quando a acusada já era deputada federal, o caso foi encaminhado para a Câmara, onde foi apurada e o relatório pedindo a cassação foi emitido e deverá ser votado. Até aqui, fatos. Mesmo assim, ela alega que foram recursos de caixa dois para a campanha [onde será que eu já ouvi isso?]. Mas como pode a Câmara se posicionar em relação a um fato cometido por deputado distrital? Seria correto alguém ser punido por algo que não fez a outrem? Sim, pois que lhe pune não foi o atingido diretamente. A situação é por deveras temerosa e temerária. Pela Lei, neste período de tempo, muitos crimes prescrevem. Não sei se este é o caso. Mas o fato é que qualquer coisa feita antes de assumir o cargo no parlamento poderá ser usada como argumento de chantagem, como ‘ou você me apóia ou eu divulgo os atos que você fez um dia’. Para quem gosta, é do tipo ‘eu sei o que vocês fizeram no verão passado’. E isso vira argumento para chantagem. Aliás, este tipo de ação foi muito usado contra a presidenta [gosto mais deste, independente de ser certo ou errado], quando fizeram uma campanha por conta dos atos praticados quando da pós-adolescência e quando os coturnos eram e ditavam a lei. É como se alguém ficasse refém de seus erros para sempre. E não deu certo. Mister se faz ressaltar que as estripulias da nobre deputada em nada contribuem para a vida pública do país e devem ser punidos exemplarmente nas esferas adequadas, como a Justiça e as urnas. Aliás, este deve ser o cenário ideal, pois somente quando o brasileiro aprender que votar em corruptos e compradores de votos é como tirar o pão de sua mesa, é que vamos ter outra classe de políticos. Mas, voltando ao caso e usando um exemplo inverso, poderia o deputado Chico Vigilante ser punido pela Câmara Distrital do Distrito Federal por algo que fez quando Deputado Federal? Aqui não digo que ele tenha feito, mas sim colocando um fato, pois este parlamentar foi da Câmara Distrital para o Congresso e voltou. O que deve ser debatido é partir de quando a mulher de César deve parecer ser honesta. Antes de casar com ele, era não era a mulher do Imperador e não lhe devia qualquer respeito especial em termos maritais. Ela somente pode ser punida pelos seus atos de Imperatriz quando se torna uma. A partir de então, não basta ser honesta, mas tem de parecer ser honesta. Mas o que fez antes ficou no passado e dele César não pode cobrar. No caso da deputada, o decoro como deputada federal somente pode ser exigido a partir do momento em que ela se tornou uma. Antes, é problema da Justiça ou do eleitor. Eles têm de julgá-la e, se for o caso, torná-la inelegível por oito anos, a Justiça, e para sempre, o eleitor. Emitindo uma opinião pessoal, por mais que deseje de ver este tipo de gente, sejam políticos ou não, mofando na cadeia, acho que julgar por algo que não lhe afetou não é o correto. Entendo que o julgamento da casa é político, mas alguma razão deve assistir quando do processo. E, neste caso, o problema não foi contra os deputados. Pode ter sido contra o povo de Brasília, mas não contra os atuais pares. Ainda que, brechterianamente, quisesse que este tipo de gente fosse banida da vida pública e mofasse na cadeia por serem os responsáveis pela miséria geral, as esferas e a legalidade têm de prevalecer. Somente assim vamos crescer quanto democracia.
Escrito por Régis às 16h51
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| 29/08/2011 |
Um condenado pede socorro
Ao longo dos últimos dias tenho visto diferentes grupos e pessoas destacando os baixos níveis de água no Rio Acre, o grande abastecedor da capital acriana – gosto mais do termo ‘acreana’. Vejo várias posições e muita inferência sem fundamentação científica. Assim sendo, mesmo com dados desatualizados e correndo o risco de errar, vou dar o meu ‘pitaco’, esperando com isso contribuir para a discussão, antes que as águas cheguem e tudo volte a ser como antes na terra de Galvez. Em 2010 fizemos um pequeno estudo sobre as variações das cotas do nosso rio, onde verificamos que este está morrendo aos poucos. O documento foi apresentado como um dos requisitos para a obtenção do título de Especialista em Planejamento e Gerenciamento de Águas da UFAM, recebendo o título de “Rio Acre: declínio de um rio e a possível necessidade de estagnação de uma cidade - uma pequena análise de 39 anos de medições em Rio Branco-AC”. Nesse artigo verificamos que as flutuações da régua – usada para medir a quantidade de água no rio – eram cada vez menores na seca e esta se estendia por um maior espaço de tempo, com o agravamento se dando a partir dos anos 90. Mister destacar que nesse período há uma grande liberação de recursos do FNO concentrada no local. O assunto foi tema de nossa dissertação de Mestrado. É neste período que a ocupação na margem direita do rio – sempre a margem é no sentido foz – se amplia, conforme o ZEE. Até o início dos anos 80, o período com cota inferior à de alerta (13,5 m de água) era de cerca de 40 dias. Nos anos 2000, o menor período de seca já foi de 75 dias. Em 2008 temos o recorde de leituras abaixo da cota de alerta, com 156 dias, iniciando em 09/06 e terminando em 17/11. Ressalto que os dados analisados chegavam somente até 2009. Neste período (71-09) a população do Estado mais que dobrou e houve um aumento da concentração de pessoas na capital. Mas isso é a constatação de um fato que se torna de conhecimento público, o qual não pôde ser comparado com igual período de chuvas por não termos os dados, mas que pelas informações colhidas, não estava havendo redução do volume (mm) de chuva ao ano. Assim, onde estaria à explicação para lenta e longa agonia do Rio Acre? Primeiro pode estar na má distribuição das chuvas. Existe uma corrente de climatologistas que atribui este fenômeno ao aumento das chuvas grossas e rápidas e a diminuição das chuvas lentas e finas. São estas as responsáveis pela infiltração da água no solo, o qual vai liberá-la lentamente para os cursos de água através de nascentes. Infelizmente estes dados não estão disponíveis, ao menos para mim. Mas, o segundo talvez seja o principal ponto. Com o desmate provocado pela concentração dos investimentos na região da margem esquerda do Rio Acre, como pode ser visto em qualquer imagem do Google Earth, vê-se que as margens do rio tiveram uma perda considerável de sua cobertura. Aqui entra o ‘achismo’, condenado pela ciência e onde entra a minha humilde contribuição. Quem conhece as fazendas acrianas (argh, de novo), sabe que o costume é desmatar tudo, deixando os antigos cursos de água como sendo apenas ‘valões’ secos no período de estiagem. Com a retirada da cobertura vegetal, as gotas de chuva atingem o solo em velocidade elevada, pois perderam o anteparo das folhas do docel. Isso somado à compactação do solo por anos sem reforma da pastagem e o pisoteio do gado, reduz a capacidade de infiltração, levando esta água ao um escorrimento superficial. A isso se soma o fato de que, talvez, pela retirada da mata, esteja havendo correntes térmicas ascendentes, o que aumenta a altitude das nuvens e prejudicando sua precipitação. Com relação ao possível assoreamento, entendo que se esse não é o principal responsável, pois se fosse estaria havendo cheias maiores, com maiores alagamentos, mas o que se vê são cheias menores e menos tempo de alagamento. Quando há assoreamento o rio tende a sair de seu leito mais facilmente, pois reduziu a profundidade. Então, vamos à última contribuição: entendo que o Estado necessita urgentemente de uma legislação sobre as microbacias, onde cada desmatador terá de recompor as margens de seus cursos de água, independente delas serem ou não perenes, e serem, ainda obrigados a erigirem terraços ou possuírem curva de nível com o plantio de espécies arbóreas, de forma a reduzir a velocidade de escoamento superficial e ampliar a infiltração. Alguns estados do país já fazem isso. Sem isso, entendo eu, a cada ano veremos o Rio Acre estertorar cada vez mais, até que um dia, em um futuro breve, simplesmente deixará de correr. 
Imagem: Região Leste do Estado do Acre onde os desmates são maiores. Fonte: Google Earth. Obs: Em amarelo a fronteira com a Bolívia. O Rio Acre é uma linha que, na região mais ao alto, separa a área desmatada da outra.
Escrito por Régis às 17h12
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| 21/01/2010 |
COMO SE DESTRÓI UM FUTURO
Depois de muito tempo em silêncio não pude deixar de pensar sobre um tema que li em matéria do jornal Estado de São Paulo em relação ao volume de cheques sem fundos emitidos ao longo do ano de 2009. O original da matéria, que partes reproduzirei aqui pode ser visto em www.estadao.com.br/noticias/economia,cheques-sem-fundos-batem-recorde-em-2009,498614,0.htm. A relação dos maiores emitentes de tais cheques é: Amapá: 10,25, Maranhão: 9,65%, Roraima: 8,92%, e o Acre - 8,91%.Pelo que se vê, à exceção da terra de Sarney, são os três estados cuja opção não foi a por formação de riqueza ou mercado interno. No caso do Acre e Amapá a opção foi pelo viés ecológico. A de Roraima, foi na marra com a ‘Raposa Serra do Sol’. No caso específico do Acre, é preciso trazer à baila que, recentemente, em matérias jornalísticas, foi reportado que o Estado tem 3º pior desempenho na evolução do ICMS do país e que o crescimento na arrecadação do tributo no Acre entre os anos de 2007 e 2008 ficou em apenas 2,32%. Inicialmente, nos primeiros anos da “florestania” houve um salto da ordem de 110%, mas no ano de 2009 ficou entre os piores resultados. Sobre este tema em especial, e do qual não se fala nas discussões atuais, é o fato de que no primeiro mandato “florestânico” procedeu-se à maior tungada em todas as esferas, desde empresários até o consumidor final. À época, o ICMS sobre combustíveis, telefonia, água e energia elétrica foram guindados aos atuais 25% (32% para a energia por conta da fórmula de cálculo). Só a título de curiosidade, no Estado do Rio Grande do Sul, um ‘pouquinho’ mais rico financeiramente que o Acre, a atual governadora não conseguiu aumentar o ICMS dos combustíveis para 17%, pois a própria base aliada votou contra. Logo, se verifica que à custa do suor e do sangue se escorcha o contribuinte, dando saltos iniciais na arrecadação, mas o isso compromete a evolução econômica ao longo dos anos, cujos resultados da falta de economia própria já se fazem sentir, pois a terra de Galvez não gera riqueza, mas gasta o produzido pelos outros via FPE/M. Da mesma forma, em um artigo publicado em jornal local (ORB, set/2008) já discutiamos o tema, dado que uma opção, seja ela em qualquer área ou setor, sempre implica em ganhos e perdas. Afinal não existe algo onde todos ganham, pois para um poder ganhar o outro deixa de ganhar (ou até mesmo perde). Somente na teoria primária do capitalismo se via a possibilidade do ganho se igualmente distribuído para todos. O Estado “Florestânico” do Acre fez uma opção pela exploração florestal, onde se apregoava que, parafraseando o belo hino do Santo Daime, da floresta eu tenho tudo, tudo ela me dá. Mas o desenvolvimento não veio e os números comprovam isso, como repisamos agora. Em termos de indicadores sociais, o IDH acreano (2000, segundo Anuário 2008) está em 0,69 (entre os piores do país). A Educação patina na falta de vagas para os alunos das escolas públicas e não se consegue reduzir o analfabetismo, como se viu nos últimos dias. Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA (2005), revelam ter crescido a concentração de renda (piorado o coeficiente de Gini) no Estado do Acre no período entre 1995 e 2003, passando da faixa de 0,585 para 0,620 (entre os maiores do país). O mesmo IPEA revela que entre 2001 e 2004 (última análise) a pobreza no Acre cresceu 2,1% pontos percentuais (crescimento de 19,4%), sendo este crescimento sido detectado curiosamente (ou não) também no Amapá (20,5 p.p) e Roraima (11,7 p.p). No restante do país houve redução. Não vamos entrar na discussão sobre a renda, por não ser preciso com estes dados anteriores. Talvez seja por estes números que, quem sabe, o governo do Acre se orgulhe tanto de atender cerca de 60 mil famílias com os programas de distribuição de renda. Todos os dados, em que pesem possuírem anos de atraso, mostram que o Estado patina e até anda para trás, principalmente quando de trata indicadores sociais. Os argumentos aqui apresentados não são uma apologia aos desmates e destruição da hiléia, mas representam um (mais um) alerta de que a forma de desenvolvimento econômico traçada pelo Estado nos últimos 12 anos está destruindo o futuro do Acre. Não temos economia própria, não temos eventos ou belezas (históricas ou naturais) que justifiquem um investimento maciço em turismo, não temos minérios, não temos agricultura e nossa pecuária anda na contra-mão do desenvolvimento (gigolôs de touros). Como a “florestania” nos levou para a concentração de renda e aumento da pobreza, pouco se nos resta em termos de futuro. Hoje pode se dizer que o Acre está com um atraso de quase 20 anos em termos econômicos e também sociais. Só nos resta então comemorar o fato estarmos entre os primeiros em pobreza, cheques sem fundo e concentração de renda.
Escrito por Régis às 16h57
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O JUIZ E O PORTEIRO. Transcrevo aqui uma sentença onde um Juiz exige ser chamado de doutor e considera ofensivo o fato de ser tratado por “ você”. Este fato relatado a seguir ocorreu em 2005, estando ainda com recurso pendente no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (http://srv85.tjrj.jus.br/consultaProcessoWebV2/consultaProc.do?v=2&FLAGNOME=&back=1&tipoConsulta=publica&numProcesso=2005.002.003424-4). É uma afronta às boas relações entre os diferentes, mas também uma aula de lógica e sabedoria do Juiz que sentenciou. E o interessante é que o “Doutor” recorreu para tentar obrigar ao porteiro ao tratamento. Só a título de contribuição: Sou engenheiro agrônomo (Bacharel), tenho mestrado e finalizo um curso de especialização (tudo em Universidade Federal). Não admito ser chamado de Doutor. Tenho nome. Os títulos servem apenas para provar até onde posso ser útil, não servindo para me tornar melhor ou pior que ninguém, mas sim aumentando minha responsabilidade para com a sociedade que me rodeia. Mas ainda bem que ainda há juízes em Berlim: “Il y a des juges à Berlin”. Pelo menos em alguns lugares. PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO COMARCA DE NITERÓI – NONA VARA CÍVEL – Processo n° 2005.002.003424-4 S E N T E N Ç A Cuidam-se os autos de ação de obrigação de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO LUÍZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do prédio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de ’senhor’. Disse o requerente que sofreu danos, e que esperava a procedência do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de ‘Doutor’, senhor’ ‘Doutora’, ’senhora’, sob pena de multa diária a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condenação dos réus em dano moral não inferior a 100 salários mínimos. (…) DECIDO. ‘O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter.’ (Noberto Bobbio, in ‘A Era dos Direitos’, Editora Campus, pg. 15). Trata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, não se justificando tamanha publicidade que tomou este processo. Agiu o requerente como jurisdicionado, na crença de seu direito. Plausível sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solução do conflito. Não deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta ação pode ter conotação de incompreensível futilidade. O cerne do inconformismo é de cunho eminentemente subjetivo, e ninguém, a não ser o próprio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente. Está claro que não quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudatório, posto que é homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que não lhe assiste razão jurídica na pretensão deduzida. ‘Doutor’ não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas às pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universitário. Constitui-se mera tradição referir-se a outras pessoas de ‘doutor’, sem o ser, e fora do meio acadêmico. Daí a expressão doutor honoris causa – para a honra -, que se trata de título conferido por uma universidade à guisa de homenagem a determinada pessoa, sem submetê-la a exame. Por outro lado, vale lembrar que ‘professor’ e ‘mestre’ são títulos exclusivos dos que se dedicam ao magistério, após concluído o curso de mestrado. Embora a expressão ’senhor’ confira a desejada formalidade às comunicações – não é pronome -, e possa até o autor aspirar distanciamento em relação a qualquer pessoa, afastando intimidades, não existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio a ele assim se referir. O empregado que se refere ao autor por ‘você’, pode estar sendo cortês, posto que ‘você’ não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação. Fala-se segundo sua classe social. O brasileiro tem tendência na variedade coloquial relaxada, em especial a classe ’semi-culta’, que sequer se importa com isso. Na verdade ‘você’ é variante – contração da alocução – do tratamento respeitoso ‘Vossa Mercê’. A professora de linguística Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos literários que apresentam altas freqüências do pronome ‘você’, devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse país, é usual as pessoas serem chamadas de ’seu’ ou ‘dona’, e isso é tratamento formal. Em recente pesquisa universitária, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor/ a senhora e você quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente. Na edição promovida por Jorge Amado ‘Crônica de Viver Baiano Seiscentista’, nos poemas de Gregório de Matos, destacou o escritor que Miércio Táti anotara que ‘você’ é tratamento cerimonioso. (Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 1999). Urge ressaltar que tratamento cerimonioso é reservado a círculos fechados da diplomacia, clero, governo, judiciário e meio acadêmico, como já se disse. A própria Presidência da República fez publicar Manual de Redação instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de ‘você’ e ’senhor’ traduz-se numa questão sociolingüística ( é com você Weden), de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais. Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corpore daquela própria comunidade. Isto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o incômodo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honorários de 10% sobre o valor da causa. P.R.I. Niterói, 2 de maio de 2005. ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO-Juiz de Direito
Escrito por Régis às 15h21
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| 29/06/2009 |
Vista Nem lembrava mais quando fora a primeira vez que a vira. Sabia não fazer muito tempo, coisa de algumas semanas. É bastante provável que das primeiras vezes tudo tenha passado despercebido, dada a falta de motivos para uma olhada mais detalhada. Mas com o passar do tempo o quadro foi se impondo no alto do horizonte escuro das noites urbanas. Mas agora isso já não importava. Às vezes pensava se tudo não passava de uma distorção de imagens. Ou, quem sabe, uma assombração ou projeção de imagens, dessas que se faz hoje em dias nos prédios em todas as cidades grandes. Mas, fosse o que fosse, ele se apaixonou perdidamente por aquele quadro sempre repintado, noite após noite nas circunvizinhanças do seu apartamento. Mas voltando à imagem, não era algo definido, onde os detalhes se apresentassem claramente. Primeiro havia a distância, distorcendo a visão. Não que fosse muito longe, mas era uma distância considerável para o olho humano, responsável pela pouca definição da imagem. Em seguida, havia a questão da pouca iluminação. À noite, mesmo com as luzes da cidade, não havia lumens suficientes para destacar detalhes. As sombras se projetavam a partir do prédio e a luz proveniente da parte interna fazia ainda mais difícil o contraste. Mas pelo que se via, para ele, já era o suficiente para sonhar e acelerar o coração. O quadro era o seguinte: todas as noites, um vulto feminino surgia em uma sacada no décimo segundo andar de um prédio. Primeiro agitava-se, acendia um cigarro e balançava os braços, como se discutisse com alguém. Andava de um lado para o outro, de forma agitada. Depois de um espaço de alguns minutos, parava. Ou melhor, estacava. Na sequência, projetava-se sobre a grade, balançando-se como se fosse se jogar. Depois, debruçava-se e ficava a olhar para o vazio. Pouco depois, começava a balançar a cabeça, fazendo balançar as madeixas longas. Primeiro de um lado para outro e depois para cima e para baixo. E aí começava a esmurrar a grade, como a se vingar de quem lhe fizera algum mal. Ao final, baixava a cabeça e assim ficava por um tempo, para depois entrar e desaparecer na parte interna do apartamento. E ele a tudo assistia, impotente diante do sofrimento dela. Se pudesse, galgaria as paredes lisas e postar-se-ia ao lado dela para protegê-la. Não podia ver o sofrimento dela sem se condoer. Não sabia quem era o ou os responsáveis por tamanho sofrimento, mas por eles já nutria um ódio mortal. Se dele dependesse, já estariam todos em lugares bastante distantes daquela delicada figura que lhe adornava as noites vazias e solitárias. Ele ficava a se perguntar qual seria o problema a causar tantas alterações. O que justificaria um sofrimento diário, transformado em ritual de sofrimento? Quem seria o responsável por tudo isso e cuja ascendência não lhe permitiria fugir? Nem mesmo se perguntava mais quem era a figura da noite. Já não era mais necessário. Sabia apenas ser uma mulher e, ao que tudo indicava com base nos movimentos visíveis, era jovem e no viço da idade. Mas o que levava uma pessoa a pensar em suicídio, desesperar-se e esmurrar algo com tamanha agressividade? Era um misto de raiva, impotência e desespero. Como alguém podia ser tão cruel com uma pessoa tão bela? E ele ficava a ruminar a dor de sua amada. Já no apartamento, agora visto por dentro, fora da vista dos outros, o jovem ‘metaleiro’ preparava o seu baseado após o silêncio imperar na casa. Quando tudo estava pronto, saía para o terraço e acendia, mantendo os braços em movimento para que o ‘pitilho’ não apagasse. Tão logo consumia, vinha a agitação, que o obrigava a se mover no pequeno espaço. Depois, quando começava o efeito da droga, segurava-se na grade e nela se apoiava. Quando chegava a letargia, ligava seu Ipod e começava a ‘benguear’ (ato de balançar a cabeça para acompanhar a música). Quando a música esquentava, fazia da grade sua bateria e, como se os braços fossem baquetas, acompanhava a música. Após, o clímax da música e da droga o deixavam em transe e ele ficava um tempo parado. Na sequência, aprumava-se e ia para dentro dormir e sonhar com a dose da noite do dia seguinte.
Escrito por Régis às 15h08
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| 08/05/2009 |
Blue eyes female
Ele olhou o céu plúmbeo, encoberto por pesadas e baixas nuvens, e uma dor apertou-lhe o coração. Não foi uma dor forte como de um enfarto. Não, foi mais como se lhe cravassem lenta e dolorosamente uma fina agulha no músculo cardíaco e, à medida que esta fosse penetrando mais no âmago do coração, se tornasse mais grossa. Era uma dor de fora para dentro, ainda que na parte mais profunda fosse fina. Mas na parte externa era como se algo estivesse rasgando as fibras de seu miocárdio. Mas a dor não era física. Era como se o problema se originasse em sua alma. Coisa do espírito e não do corpo, embora a sensação fosse como se este estivesse sendo atingido fisicamente. O corpo expressando ao seu jeito as mensagens da alma (continua). No princípio não entendeu o motivo daquela angústia profunda e dolorida. Apenas sentiu. Mas aos poucos a capacidade de associação foi se impondo. O cérebro lentamente dava-se conta daquilo que o espírito já manifestava. É claro que desde o primeiro sintoma ele já sabia o motivo. Apenas não queria admitir para si a razão de tudo, pois sabia que o sofrimento somente tenderia a crescer com a razão se impondo e as idéias clareando. A dor de tê-la visto morrer em seus braços doía demasiadamente até hoje. Olhou novamente para o céu e rememorou o dia do primeiro encontro, considerando ser isso melhor que lembrar o fim trágico. Era uma noite fria e molhada. O resultado de um dia cinzento e chuvoso, com a noite sendo apenas o avanço das condições plúmbeas na direção do preto soturno. À noite o clima era pesado, úmido e com uma leve brisa gelada. Nessa condição mais propícia a um filme de terror, onde alguns raios fantasmagóricos ainda riscavam o céu de tempos em tempos, ele a viu enquanto caminhava pela rua deserta. No primeiro momento, não prestou muita atenção ao pequeno vulto encolhido embaixo de uma pequena marquise, buscando um refúgio contras gotas de chuva que ainda caíam. Ela estava molhada. Melhor, encharcada. Parecia que cada uma das menores partes de seu corpo abrigava uma gota de água. E estas, ao escorrer obedecendo à lei da gravidade, depositavam-se aos seus pés em uma poça. Era um quadro definitivamente feio daquela criatura tentando se abrigar do frio e da chuva. Mas naquele quadro dantesco uma coisa lhe chamou a atenção: os grandes olhos azuis. Era um misto de medo e arrogância. Como a lhe dizer ‘me ajude, mas se não puder, pouco me importará’. Mas eram lindos aqueles olhos azuis, os quais embelezavam o rosto delicado. E ele se apaixonou por aquela criatura. Deste encontro pouco mais se lembrava alem do fato de ter se aproximado delicadamente para não assustá-la mais. A comunicação foi instantânea. Havia uma química entre eles, como ele sentira desde a primeira troca de olhares. E para ela seguir com ele não foi difícil. Ele sabia ser ela uma personagem da rua, sem quem cuidasse dela, mas isso não importava. O que sentia era maior. É claro que nem tudo fora um mar de rosas nos poucos anos de convivência. Ela descobriu que ele tinha defeitos e ele os dela. Quando irritado, às vezes, batia nela. Ela revidava. Não era fêmea de apanhar e ficar por isso mesmo. Quando as brigas eram fortes a este ponto ela fugia e ficava dois ou três dias fora. Neste período o outro dizia para todos jamais aceitar um retorno, tendo aquela sido a última vez em que foram vistos juntos. Mas quando ela retornava, meio desconfiada, como se entrasse em casa pela primeira vez, ele esquecia tudo e a pegava instantaneamente no colo, cobrindo-a de carinhos e mimos, o que era imediatamente revidado em igual ternura. O amor era maior. Das manias dela havia uma a irritá-lo profundamente: a atenção demasiada com as unhas. Por ela estar sempre as mantendo bem cuidadas, fazia com que ele odiasse cada gesto neste sentido. Outro ponto era a mania de limpeza e a forma como ela se banhava depravadamente na sua frente. Era lasciva demais ao tocar o próprio corpo. Havia também a forma escandalosa e barulhenta de fazer amor, algo um tanto exasperante. Mas tudo se olvidava quando os dois ficavam juntos e trocavam carícias. Mas aquela criatura nefasta tinha de aparecer e se intrometer na relação estável deles. Aquele monstro asqueroso e envenenado surgiu como do nada e destruiu um amor verdadeiro. Todos os dias ele se punia por não ter tomado as devidas precauções e por não estar em casa no dia trágico. Se ele estivesse, ela poderia ainda estar viva. Se. Mas ele não estava e a sua querida gata siamesa comera um rato envenenado, sendo encontrada agonizante nas proximidades dos restos do assassino. Tudo que pode fazer foi vê-la ir morrendo aos poucos, com a vida se esvaindo lentamente daqueles lindos olhos azuis, a sua paixão eterna.
Escrito por Régis às 18h10
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| 04/05/2009 |
A morte da Velhinha do Seringal
Há algum tempo, quase por brincadeira, ‘localizei’ um personagem similar (e espelhado) na Velhinha de Taubaté. O personagem era a Dona Credentia, a Velhinha do Seringal. Segundo as pesquisas genealogenéticas efetuadas pelo Centro Acreano de Documentação de Pessoas e pela unidade de Mapeamento Genético da População Acreana, a idosa senhora era a última parenta viva da homônima paulista. A dileta senhora, que teve apenas umas duas ou três histórias por mim retratadas, tinha entre seus ídolos o jornalista acreano Washington Aquino e um papagaio chamado CAnibal. Para D. Credentia um dos programa prediletos era ouvir Aquino em seu programa matutino na rádio Difusora. Ela acreditava quando o jornalista exaltava as vantagens e mudanças que estavam ocorrendo na ‘Florestania’. E de sua chácara na Vila Acre, de onde não saía há mais de vinte anos, ela imaginava um Acre seguro e próspero. ] A primeira crise de hipertensão da Velhinha do Seringal veio com a demissão de Aquino da rádio. Para ela, naquele nefasto dia que a notícia percorreu os rincões e grotões acreanos, era como se algo fabricado pelo mais fino cristal da Boêmia tivesse se partido. Como podia alguém não gostar do que era dito pelo rapaz? Nesse dia a pressão sanguínea subiu. A Velhinha sentiu uma forte dor de cabeça, náuseas e uma vertigem. Atendida por uma unidade do SAMU, acionada pelo CAnibal (este aprendeu a fazer ligações para poder se comunicar com os outros papagaios da região). Os paramédicos atenderam e diagnosticaram um acidente vascular cerebral e encaminharam a idosa para o pronto-socorro do Hospital de Base, onde ela foi medicada e liberada poucas horas depois para se tratar em casa. Houve apenas um grande conselho: evitar grandes emoções. Desde este dia D. Credentia passou a assistir televisão, onde poderia saber das notícias da ‘florestania’ e, finalmente, ver o seu ídolo apresentado aquele que, na opinião dela, era o melhor jornal televiso do mundo – até por ela não ver qualquer outro. A cada risada ‘espontânea’ de Aquino ela ia ao Nirvana. Nada passava mais credibilidade. A ‘independência’ com que o jornal era apresentado era algo valorizada por ela. Mas a pressão dela passou a se alterar nos últimos tempos. De repente a ‘florestania’ não era mais tão bela. Alguma coisa estava errada neste imenso seringal chamado Acre. Os problemas estavam aparecendo e ela ficando cada vez mais atônita. Afinal, a vida não ia melhorar? E a pressão subindo como as água do rio Acre e a pluviometria do mês de abril. Nos últimos tempos ela já era mais a mesma. Por conta das alterações no humor dela nem mesmo o Serviço Secreto da Florestania, o famigerado SSF, se interessava mais pelas palavras dela, já um tanto desconexas por conta do AVC. O SSF chegou até desligar o grampo da casa dela. Nem mesmo os pesquisadores do o IBGE -Instituto Bocacrense de Garimpagem Exclusiva, a serviço do governo do Estado, estavam mais interessados na opinião dela. Quando foi neste último fim de semana a situação foi ao extremo. A velhinha ficou sabendo da demissão de Aquino da TV5. O verdadeiro bastião da credibilidade da floresta havia caído. Agora as manhãs não seriam mais as mesmas. Calava-se a risada mais apreciada e não se ouviriam os comentários concisos e coerentes. Quem defenderia a ‘Florestania’ de forma tão correta e verdadeira? Uma dor aguda e violenta acometeu a velha senhora. Diretamente na cabeça. A escuridão se formou ao seu redor, seguida de náusea violenta e uma dor excruciante lhe irrompeu do peito. Era como se lhe fendessem o externo e expusessem o conteúdo peitoral. A dor foi tamanha que ela desfaleceu para desespero do CAnibal. Ele ainda ligou para o SAMU, mas nada mais podia ser feito. A vida havia se esvaído com a última notícia. Sem Washington Aquino na imprensa não havia mais motivo de vida. Ao saberem da notícia do fim da última pessoa capaz de acreditar na propaganda oficial o SSF e o IBGE (Instituto Bocacrense de Garimpagem Exclusiva) se preocuparam com os destinos da Florestania e já estão à caça de alguém, pelo menos uma pesssoa, que acredite na propaganda oficial e com isso o governo possa se manter. Há controvérsias se isso é possível, mas somente o tempo dirá.
Escrito por Régis às 16h10
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| 03/04/2009 |
A voz
Desde a noite de quinta-feira (2-abr-2009), o silêncio vai imperar nos aeroportos brasileiros. A voz que alertava passageiros para embarque e desembarque não mais será ouvida. O serviço foi extinto pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária-Infraero. A alegação? Poluição sonora. Posso até concordar com eles com relação a alguns aeroportos do país por onde andei. Em alguns sequer se entendia o som dos auto falantes. Em outros, parecia uma gralha desafinada grasnando feito um corvo histérico. Estes podem e devem ser emudecidos. Pura poluição. Porém, em outros, deveria ser mantido. A deusa dos aeroportos atende pelo nome de Íris Lettieri. Dona de voz sensual, a locutora, cantora e ex-atriz carioca despertava o imaginário de alguns passageiros que subiam e desciam dos aviões. Iris é considerada por correspondentes internacionais “a mais bela voz do mundo” (com informações da Infraero: http://www.infraero.gov.br/impr_noti_prev.php?ni=5071&menuid=impr). O primeiro aeroporto a utilizar sua locução foi o de Manaus, em 1976. Mas com a inauguração do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão, em 1977, que ela ficou mundialmente conhecida como a voz oficial desse aeroporto. Contudo, nos últimos tempos, os anúncios estavam restritos aos Aeroportos de Guarulhos (São Paulo), Congonhas (São Paulo), Eduardo Gomes (Manaus), Antonio Carlos Jobim/Galeão (Rio de Janeiro) e Santos Dumont (Rio de Janeiro). Para mim a lembrança do Galeão/Tom Jobim ficará marcada para sempre na memória: "Atenção senhores passageiros com destino a Miami: embarque imediato no portão de número ...". Uma frase normal e corriqueira, mas que qualquer um gostaria de ouvir durante muito tempo se pronunciada na voz sexy Íris. Eu já havia ouvido e visto essa senhora em programas de televisão. Era bonito. Mas nada se comparou ao delicioso choque quando sai para o saguão do Galeão/Tom Jobim e recebi aquela carícia em meus ouvidos. Parei. Melhor: Estaquei. Se você nunca ouviu, não saberá o que digo. Se já ouviu, saberá entender o meu estupor. Imobilizado entre um passo e outro eu procurava no éter. Era como se a pessoa estivesse ao meu lado, falando lânguida e sensualmente só para mim. Convidando-me para ir para Miami – nem sei mais se era mesmo para lá – com ela. E eu teria ido de bom grado, se fosse verdade. Não sei quanto tempo fiquei parado naquela posição ridícula, com um pé à frente e o outro atrás. Acho que estava em pose semelhante à clássica foto do ex-presidente Jânio Quadros logo após a renúncia, com cada pé apontando para um lado diferente. Sem rumo. Ouvir a ‘Voz’ de Íris Lettieri foi uma das sensações mais agradáveis para mim. Era como flutuar no espaço, sustentado pelas deliciosas ondas sonoras emitidas por ela. Mãos imaginárias, delicadas e sensuais, me acariciavam. Tenho quase certeza da permanência desta lembrança em minha mente por todos os meus dias ainda restantes. Já se passou 15 anos da experiência e ela continua vívida. Talvez, em alguns anos, quando não mais lembrarem dela, eu estarei sentado com os meus netos e direi orgulhosamente a eles ter ouvido, um dia no passado, a mais bela voz do mundo. Em termos de excelentes lembranças auditivas só posso dizer que ouvi-la no Galeão/Tom Jobim só pode ser comparado com a primeira vez que ouvi um Uirapuru na floresta Amazônica. Foi lindo. Mas este cantava sozinho, enquanto ela falava por um alto-falante em meio à cacofonia de vozes humanas e o ensurdecedor ruído de turbinas. Assim, para mim, ela ocupa o primeiro lugar. Penso ser eu um privilegiado. Pude ouvir as duas mais belas vozes do mundo: um Uirapuru e Íris Lettieri. Acredito não haver neste mundo algo capaz de se comparar a estas duas emanações vocais. Mas pássaros existem vários. Íris só uma. Só ficou uma pontinha de tristeza por não ter ouvido ao vivo e pessoalmente. Só para mim. Mas isso é avareza. Íris deveria ser compartilhada com todos. E assim o foi. E então eu penso que se Rick Blaine (Humphrey Bogart) teve a sua Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e eles sempre terão Paris, eu e Iris Lettieri sempre teremos o Galeão/Tom Jobim. Ainda que ela não saiba disso. 
Escrito por Régis às 14h30
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| 17/03/2009 |
O Espírito de Natal
Por problemas, vou republicar uma crônica do Natal: Era um dia como outro qualquer, com a diferença apenas que se haviam passado cinco dias do Natal. O tempo se apresentava chuvoso, como quase sempre neste período do ano na Amazônia brasileira. Neste dia em especial saíra eu de casa com destino a Universidade Federal do Acre – UFAC para resolver alguns pequenos detalhes, sendo que posteriormente me deslocaria até o centro da cidade para outros assuntos. Como normalmente faço, levei apenas o dinheiro necessário para pagar o ônibus urbano em direção ao centro a partir da universidade e para o retorno para casa. No caso em questão, levara apenas cinco reais, pois a passagem custa R$ 1,90. Ou seja, isso me deixava uma margem de R$ 1,20, mas como não pretendia gastar em nada, bastava. Em certo ponto, por volta do meio do trajeto até o centro da cidade, vi quando adentrou ao ônibus um rapaz de aparência jovem (algo em torno de 30 anos), tez morena, magro e com um detalhe que chamava mais a atenção: os olhos eram completamente brancos, revelando uma cegueira total. Tão logo o coletivo saiu da parada onde o deficiente visual subira, este se aproximou da roleta e procurou falar com os passageiros, sem, contudo, passar para a outra parte do ônibus. Disse rapaz que estava pedindo ajuda para realizar tratamento em outro Estado por conta do problema de saúde que possuía. Contou ser morador da área rural, onde teria acontecido o acidente fatídico. Relatou estar em uma caçada e quando foi fazer um disparo, acertou a si mesmo, sendo que dos quase quarenta caroços de chumbo a lhe atingirem a face, a metade já havia sido extraída. Dos restantes, alguns estavam perigosamente alojados no cérebro, razão de sua ida a outro Estado. O pedinte, que revelou já ter ido a canais de televisão pedindo ajuda, revelou ter sofrido privações na outra vez em que teve de viajar para fora do Acre em busca de tratamento. Disse ter passado dois meses em outro estado com apenas o correspondente a um salário mínimo, sofrendo privações e muita fome, ele e a genitora. Relatou ter obtido as passagens desta vez, mas ainda não possuía os recursos para a manutenção dele e do acompanhante. Em face deste relato, buscava ajuda dos ouvintes. Enquanto ele falava, meus olhos fitavam aqueles globos oculares totalmente brancos. Via-lhe a face contrita de quem é obrigado a esmolar para tentar tratamento de saúde. Via uma pessoa se humilhando e sentindo os efeitos disso no próprio corpo magro. Nisso eu pensava que se tivesse algum dinheiro de sobra, ajudar-lhe-ia. Mas, tornei a matutar, em uma época especial, onde todos celebram o Natal e atribuindo a isso uma mudança de caráter por conta de tudo a existir sobre o tema, pensei que não lhe faltariam mãos caridosas a fazerem doações. Enquanto ele falava, pensei no quanto poderia ajudá-lo, pois quase não levava dinheiro, mas ao mesmo tempo esperava ver os auxílios se aproximando. Neste pequeno espaço de tempo, sacudi os meus bolsos e tirei uma moeda de um real e me aproximei do rapaz. Apesar de ser apenas simbólica a ajuda, estava lhe dando quase um terço de tudo que possuía no momento. Mas, pensei eu, o Espírito de Natal haveria de se manifestar e as pessoas iriam ajudar o rapaz, se não resolvendo o problema dele, ao menos minorando seus males. Mas o rapaz permaneceu abraçado à coluna do ônibus, ao lado da cobradora, com seu olhar cego e vazio, enquanto o coletivo chegava na parada central, onde eu desci. E ninguém mais lhe deu uma mísera moeda. A expressão de tristeza naqueles olhos mortos me mostrou a realidade do espírito de natal (assim mesmo, em minúsculas). Nessa época, final de dezembro, nos lembramos de comer, brindar, felicitar e presentear àqueles que conhecemos, mas não somos capazes de olhar o nosso irmão que nos estende a mão e pede apenas um pouco. A isso me vem à recordação dos ensinamentos do Menino: Quando a um destes meus pequeninos fizestes, a mim o fizestes (Bíblia: Mateus 25: 40). E constato não termos entendido a doutrina cristã.
Escrito por Régis às 18h20
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| 06/03/2009 |
Pela vida
Acordo cansado depois de mais uma noite mal dormida. Mas não me deixo abater. É muito pouco que me é requerido para ajudar alguém a quem devo tanto e amo em proporção ainda infinitamente maior. Será mais um dia em luta pela vida. A dela. Mesmo sabendo da possibilidade de ser este igual a tantos outros dias, onde as notícias simplesmente não existem, me mantenho firme. Não que seja fácil, pois não é nem um pouco, mas a luta é gratificante. Cada dia é praticamente o mesmo: ir ao hospital, ajudar na higiene pessoal, contar-lhe histórias que não sei se está ouvindo ou entendendo – mas a mim basta a intenção e a vontade de, quem sabe, lhe fazer algo bom. As massagens nas articulações, músculos e ligamentos, bem como as flexões dos membros inferiores e inferiores são uma rotina para se reduzir os efeitos da inanição e ajudam a melhorar o ambiente. É claro que ao vê-la em tal situação fico a me perguntar como seria se isso não tivesse acontecido e ela estivesse comigo na plenitude de suas forças. Mas não foi possível e temos de lutar contra os fatos. Estes dão conta dela estar totalmente paralisada e sequer com atividade cerebral. Mas não é por conta dos problemas, meus e dela, que vou desistir. Enquanto houver vida naquele corpo, estarei do lado dele e fazendo a minha parte. Ou seja, vou fazer tudo ao meu alcance. A degeneração é algo que se processa a olhos vistos em um corpo imóvel durante anos. Mesmo com as atividades físicas forçadas, há uma redução na massa muscular e um encolhimento de nervos e tendões. Os olhos vão se tornando encovados com o passar dos dias. O cabelo perde o viço e cai desgrenhadamente mesmo sem movimentos de cabeça. A pele se deposita sobre os ossos descarnados. O rosto murcha. Mas quem disse que seríamos belos para sempre? Quem disse ser o amor o resultado de uma equação matemática conjugadora dos fatores beleza e viço? Se assim pensasse trocaria a esposa a cada quinze anos, quando os sinais do tempo se fizessem mais visíveis. Mas o amor tem de amadurecer com os anos e nós sabermos que a decrepitude será um fato. Se não for assim, a pedofilia será aceitável e não uma aberração ser combatida. Me recuso a vê-la somente como um fardo, pois fardos somos todos nós. Cada um de nós é, de uma forma ou de outra, um peso para outros. Se não vejo beleza ou recebo de volta o retorno pelos meus préstimos, tenho em mente tudo que nos envolveu no passado. A cada gesto meu é como se restituísse ou devolvesse parte de tudo já tivemos. E por isso tudo, ainda estou na luta. Médicos já me disseram não haver esperança e ser apenas uma questão de tempo. Ok. Vou esperar o tempo. Não serei eu o responsável pela sua morte. Quando chegar o tempo, a natureza seguirá o seu curso. Até lá, vou estar aqui, ao lado dela. O trabalho não diminui o meu amor e minha devoção. Não vou desistir. Em algum lugar e em algum momento alguém pode ter a resposta para o mal que nos aflige. E, quando chegar este momento, quero estar aqui, ao lado dela, pronto para fazer o necessário para por fim a esta luta. Não foi culpa de ninguém o ocorrido. Mesmo se culpa houvesse, isso não retiraria a responsabilidade daquele que ficou de lutar até o fim pelo restabelecimento do outro. Não se deixa um companheiro caído na estrada. Se ele não consegue se erguer, nós o levantamos e o apoiamos até o restabelecimento. Somos um o apoio do outro. Se na hora da necessidade somos egoístas e falhamos com os nossos, como nos autodenominaremos humanos? Se tudo isso falhar e a perdermos a luta, ficará a sensação do dever cumprido. Não terei perdido meu tempo, mas mantido o respeito por mim mesmo. (PS: Não sei se seria tão altruísta assim. Apenas tentei me colocar no lugar dele.)
Escrito por Régis às 16h42
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Liberdade
Estou cansado. Já não sei quanto tempo se passou da primeira vez que entrei neste local. È provável que o tempo possa ser contado em anos. Vários deles. Mais de dez, tenho certeza disso. O cansaço se impõe no corpo e no espírito. Dor física e mental. Dificuldade de entendimento. Olho para os equipamentos de monitoração da vida: pressão arterial, freqüência cardíaca e respiratória, temperatura, atividade cerebral. Tudo igual. Afinal, controlado pelas máquinas de manutenção da vida não se movem além do estipulado pelo programador. O poder da vida é compartilhado entre o fabricante da máquina e o médico que programa o equipamento de acordo com as necessidades da vítima. A morte não pode fazer a sua parte no devido tempo por conta da ação daqueles dois. O objetivo é manter a vida. A vida de quem? A minha já não existe faz algum tempo. Sou escravo de um vegetal. Mesmo sem vontade própria este vegetal me domina e determina como devem ser os meus dias. A hora de acordar, de dormir. Até mesmo o pensamento possui um censor, capaz se cercear idéias lúgubres que insistem em pairar entre o consciente e o inconsciente. São dias e noites insones. Existem momentos onde meus pés me levam a lugares onde não desejo estar. Talvez o ser sem vontade seja eu. Talvez a incapacidade seja contagiosa e hoje também seja eu um vegetal. Já não sei de mais nada. Não decido. Olho para a figura a se deteriorar como se não a conhecesse. Já não é nem sobra da pessoa amada. Tratasse apenas de um pedaço de carne em decomposição. Degeneração lenta, gradual e constante. Encarquilhamento de pele. Atrofiamento de músculos e tendões. Órbitas encovadas, residência de olhos sem vida. E nem mesmo toda a fisioterapia do mundo pode mudar o inexorável. O fim já aconteceu há muito tempo. O fim foi rápido e, penso eu, indolor. A degradação é que tem sido lenta. A morte em vida é mais dolorosa. Acompanhar a degradação sem vantagem é algo pelo qual ninguém deveria passar. As pessoas deveriam ser poupadas de enterrarem aqueles que o amam. A dor de quem fica é enorme quando o fato causador acontece, mas, ao contrário daqueles que perdem seus entes de forma definitiva, enterrando-os, ficar sentindo-a a cada dia é masoquismo. Quem enterra os seus perdidos, deles guarda a lembrança. É uma saudade doida, mas uma lembrança vívida. Os que são forçados a acompanhar a degradação em vida têm de sofrer o impacto principal e os pequenos impactos diários. Dor por atacado seguida pela dor no varejo. Sofrimento alopático inicial e homeopático no dia-a-dia. Olho para aquele pedaço de carne disforme, com vida artificial e penso em como seria se o sofrimento chegasse ao fim. O sofrimento de todos. Se, por acaso, acontecesse o milagre da vida. Não da vida que recomeça, pois esta já terminou, mas sim o milagre do final de um para que o outro possa existir. Neste caso em especial, enquanto há vida para um não haverá vida para o outro. Não se trata de egoísmo, mas de realidade. Olho mais uma vez para aquela ‘forma disforme’. Não vejo ali o ser amado. Só consigo ver o peso morto de uma carcaça sem vida, ao menos em sua plenitude. Não penso, logo não existo. Sei que muitos vão me culpar e outros até mesmo vão me chamar de assassino. Mas a decisão está tomada. Olho para os médicos e sinalizo. Um a um os aparelhos são desligados. As sondas são retiradas. O corpo nem mesmo treme. Não há sinal de vida partindo. Não há estertores. Apenas a paralisação de movimentos induzidos. Estamos livres. Os dois. (PS: Não acredito nessas coisas que escrevi. Apenas tentei retratar o fato como se dele tivesse participado. É uma visão. Não concordo com ela, mas respeito).
Escrito por Régis às 16h36
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| 04/11/2008 |
Um triângulo em busca do prazer
Tudo começou como das outras vezes em que eles se encontraram. Era apenas um encontro formal. Ao menos no primeiro impacto. Já havia tanto tempo destes encontros, onde o contato inicial, per se, não causava qualquer alteração. Mas ele sabia da possibilidade de tudo evoluir para algo mais. Em cada reunião entre eles, mesmo as mais formais, sempre poderia descambar para algo mais forte. Poderia ser uma explosão repentina ou mesmo uma evolução lenta e gradual na união dos três. OK. Era um triângulo, onde cada ângulo tinha sua função pré-definida no resultado final. Mas cabia a ele a parte mais importante na relação. Mas não se entenda nisso qualquer traço de machismo. Até pelo fato de existirem outros estrelas de três pontas onde a parte principal cabia as mulheres. Mas isso era problema delas e de quem descrevesse a relação delas. Havia momentos onde a relação entre eles era da maior frieza profissional. Mesmo que fosse prazerosa em certos momentos era, de certa forma, um ato mecânico engendrado apenas para atender os interesses de outros. Mas até daí poderia haver alegria. Contudo, houve muitas vezes (e haveria ainda muitas outras, disso ele tinha certeza) em que tudo era apenas a automação da mente e do corpo para atender a algum pedido. Mas da formalidade inicial do contato ele fez com que uma das duas outras passasse a se esfregar sobre a terceira. Esta, estendida sobre a mesa, sempre era a passiva na relação, cabendo a ele e a outra companheira a parte ativa. Mas mesmo a que exercia a função passiva tinha uma participação fundamental na relação, pois sem ela, não haveria o prazer final. Inicialmente os movimentos eram lentos e um tanto exploratórios. Mas, nesse vai e vem de uma sobre a outra, ele começou a sentir um interesse maior. Uma excitação que brotava dos recônditos mais obscuros do corpo. E da mente. Sim, pois daí surgia cada um dos passos e movimentos que ele implementaria ou experimentaria sobre as outras participantes. Com o aquecimento inicial dele conduzindo o vai-e-vem de uma sobre a outra, sentiu a atividade se tornando mais forte. Pensamentos lúgubres e até pecaminosos passavam na cabeça dele, pois como um voyer ativo via a evolução do ato e podia antever o resultado de tudo, onde o prazer final levaria cada um ao seu devido lugar. Pelo menos até um novo encontro. Em certos momentos, devido à ânsia de elevar a temperatura da atividade, chegavam até mesmo a deslizar por sobre a mesa que lhes servia de apoio naquele instante. É claro já ter havido momentos em que tudo fora feito em pé, com a mão dele servindo de apoio. Em outros momentos, foi em cima da perna. Até mesmo encostado na parede já haviam tentado, mas o resultado não era satisfatório e as falhas de um ou de outro eram comuns. Mas para ações fortuitas e rápidas, qualquer coisa servia. Havia preferência pela luz e claridade, mas nem por isso deixavam se exercitarem à meia luz. Mas ele sabia que pelo menos alguns lumens eram necessários para tudo chegar a bom termo. Ao serviço deles penumbra não era bem vinda. Enquanto a chama da relação subia, qualquer um poderia ver que ele, acima e comandando, era, talvez, quem mais se beneficiasse do ato. A que permanecia por baixo, era a mais sobrecarregada pelo esforço. Além disso, era nela que os outros dois descarregavam os seus interiores. A do meio, tinha um desgaste constante. E todo ápice do prazer sobrava a ele. Mas não podia ser descartado o benefício para os que vissem o resultado de tudo. Se algo desse errado, tudo seria escondido da vista de todos. Se tudo corresse bem, ainda que dificilmente houvesse planejamento nesses encontros prazeirosos, todos teriam acesso ao resultado final. Foi então que o escritor olhou para a folha de papel onde estivera escrevendo com sua caneta e, ao ler o resultado do trabalho, sentiu um imenso e imponderável prazer pela criação. Inconscientemente, agradeceu as duas, que, como das outras vezes, lhe serviram a contento. Mas, à espreita, havia um terceiro personagem: um computador. Este pronto para intervir e assumir a função se não de uma talvez das duas.
Escrito por Régis às 19h00
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| 11/09/2008 |
Degradação e morte
Eu sempre passava por cima de onde ele estava e o via movimentar-se logo abaixo da ponte. Nas primeiras vezes pouca atenção lhe dei. Mas com o passar dos anos dessa convivência pacífica, comecei a notar e a lhe dedicar um ou outro olhar mais detalhado. Mas mesmo hoje não sei exatamente de onde ele vem. Mas voltando ao transcorrer do tempo, pude testemunhar o agravamento de sua doença. No começo foi apenas certo turvamento, um escurecimento superficial. Mas mesmo assim era possível sentir-se a vida em seu interior. Não era um aspecto dos melhores se comparado a outros em situação semelhante, mas ainda assim não causava maiores problemas. Se não era o melhor, ficava longe de ser o pior. Seguindo, vi quando, há cerca de cinco ou seis anos, por conta de uma ação da Prefeitura, houve uma melhora incrível em seu aspecto. É claro que o fato não se deu de um momento para outro, mas de forma lenta e gradual. Primeiro foi o clareamento e a melhoria do cheiro. Aos poucos já era possível passar pelo local onde ele fica e não precisar virar o rosto para outro lado na tentativa de se omitir dos problemas por ele enfrentados. Pouco depois já foi possível mesmo olhar diretamente para ele. Desse momento em diante as pessoas até mesmo já admitiam certo conforto ao passar pelo local. Um pouco depois, cerca de um ou dois anos, já era realmente agradável conviver com ele. Já não havia mau cheiro e podia se sentir a vida em seu interior. Sim, que passava pelo local se espantava pela mudança ocorrida em tão pouco tempo. Era como se um doente em avançado estado de degradação e, por que não dizer, condenado à morte, voltasse a uma vida normal. E as pessoas se felicitaram por morar vida e beleza debaixo daquela ponte. Mas, tão logo houve este verdadeiro milagre, tudo voltou a ser como antes. Na realidade, tudo ficou ainda muito pior. Como se o interregno de saúde, vida e beleza nunca tivesse existido. Tão logo como fora a ação do Poder Público Municipal em defendê-lo, fora a ação para abandoná-lo. Os remédios aplicados para salvá-lo deixarem de ser aplicados. E, como um porco que retorna ao seu lamaçal, ele começou a definhar novamente. E numa velocidade não vista nos outros momentos de dificuldade. Em cerca de dois anos era como se nada tivesse sido feito. Foi como se o relógio andasse para trás e ao chegar ao ponto ruim voltasse ao curso normal. Só que mais acelerado. E a degradação foi visível. Houve um rápido turvamento. Que se transformou em negrume. Depois o cheiro. O mau cheiro. Que virou insuportável. Nauseabundo. Podre. Era um misto do odor de fezes e urina. Não era mais possível olhar para ele. Eu, como os outros, sempre que passava por cima de sua ponte, virava a cara e torcia o nariz. Mas não fazia nada. Apenas assistia a decadência e o martírio. Enquanto isso, ele agonizava ao alcance de minha mão. Agora, quando estou a escrever esta crônica, fico a pensar quem poderá salvar o Igarapé Dias Martins. Sim, este é o nome dele. O pequeno curso d’água que cruza o parque Zoobotânico da UFAC, passa por debaixo da BR 364 e deságua no Igarapé São Francisco está agonizando. Se há pouco tempo era possível ver-se os peixes em suas águas claras (após a construção da Estação de Tratamento de Esgotos do Bairro Mocinha Magalhães), agora é apenas um espaço de águas pretas, em cima do que fica uma nata esbranquiçada. Em seu interior não há mais vida. Os peixes que não puderam fugir morreram. E tudo isso devido ao fato de uma bomba elevatória ter dado problema. E ninguém faz nada para arrumar. Com isso o esgoto das cerca de 1,4 mil casas do Conjunto Universitário deságuam diretamente no pequeno igarapé sem qualquer tratamento. E, assim como eu, o Poder Público (e o Ministério Público) não faz nada. Espero que após este lamento, alguém faça algo por este manancial. Espero que um dia eu possa ver novamente os peixes e a vida no local.
Escrito por Régis às 15h45
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| 01/09/2008 |
Suicida
Fora mais uma noite insone. Como em tantas outras, ficara a perambular de um lado para outro. Se alguém lhe perguntasse por onde andara, não saberia dizer. Não tinha idéia nem mesmo se realmente caminhara ou mesmo se saíra do lugar. Afinal, todos os lugares eram iguais nos últimos tempos.
A isso se somava a incapacidade de sentir cansaço. A sensação de estafa muscular já não lhe acompanhava mais. Era como se as suas fibras tivessem se transformado em ligamentos do mais puro aço. Não importava a distância. Se é que andava.
O dia já clareara havia algum tempo. Agora com o Sol já tendo espantado os últimos negrumes da noite, começava um novo dia. Um novo dia com a mesma cara do velho. De muito velho. Mais um período igual a tantos outros. Apesar da intensidade do Astro Rei não sentia mais calor. Era como se cada uma das terminações nervosas de seu corpo tivesse deixado de notar as variações climáticas. Frio ou calor já não importava mais. Nem mesmo se recordava quando fora a ultima vez que sentira frio. Havia sido frio na noite anterior? Não sabia. Ou não lembrava. Tanto fazia, pois quando não se valoriza a sensação, não importa se elas - as mudanças - ocorrem ou não.
Já estava cansado disso tudo. Cansado de não ficar cansado. Como era estranha a situação. Queria sentir frio para poder se aquecer no sol. Queria um ar-condicionado para poder se refugiar do calor. Insatisfação. Incoerência. Características humanas.
Mas o drama não acabava aí. O que mais lhe incomodava era a indiferença das pessoas para com ele. No começo, dada sua personalidade arredia e tímida, não sentira falta. Até gostava do fato da multidão não ‘dar bola’ para ele.
Mas com o passar do tempo tudo fora ficando mais difícil. Era como se a solidão fosse um ser silencioso ao lado dele. Quase física. Tangível. Irritantemente quieta. Muda tal qual um cadáver. Não conseguia entender.
Enquanto pensava estas coisas veio-lhe à cabeça a idéia de dar um fim em tudo. Acabar com aquele sofrimento. Dar um basta na solidão metendo uma bala na cabeça da solidão e atingir a sua própria na seqüência. Mas, assim como veio, a idéia se desfez.
De repente, ficou a pensar quando fora a última vez que repousara para valer, ou seja, dormira. Não tinha a menor idéia. A sensação estranha voltou novamente. Não dormia – ou não lembrava de ter dormido, mas também não sentia sono. Até por não mais noção de tempo. Um dia era apenas o outro lado da noite. Apenas o pólo positivo do negativo.
Vendo as pessoas se movimentando, indo de seus lares para seus trabalhos, ficou pensado o que acontecera com ele, pois não tinha casa nem trabalho. Mas também não sentia falta de nenhum deles. Era como se isso não tivesse a menor importância. Ou talvez tivesse, mas no momento não importava. Não mais.
Pensou em dar uma volta e tentar se comunicar. Tão logo pensou agiu. Partindo em direção ao mar de pessoas a se movimentar em sentido contrário ao seu, avançou diretamente. Mas eles passaram por ele. Como se simplesmente ele não estivesse ali. Trespassado.
Desesperado, começou a gritar. Aproximou-se de vários transeuntes e proferia palavras diversas, desde pedido de socorro até os mais escabrosos palavrões e ofensas. E nada.
A dor da solidão se faz pungente. Doeu como uma lança a trespassar-lhe o corpo inteiro. Na realidade, era como se todas as lanças do mundo estivessem sendo cravadas em cada poro. Não sentia as dores e sensações físicas, mas as da alma eram absurdas e muito acima do tolerável. Eram as agonias do espírito. A dor daqueles que não tem a quem recorrer. A dor dos solitários. E a idéia voltou.
Decidido a se suicidar, andou em direção à rua. Ficou a olhar o trânsito e se descobriu pensando qual seria o veículo escolhido para por fim a seu drama. E ele veio na forma de um grande caminhão. Sem pestanejar, atirou-se na frente dele. Não estranhou o fato do motorista não ter feito qualquer tentativa de brecar. Também não estranhou o fato de não ter sido atingido. Afinal, fantasmas não morrem. Apenas sofrem suas solidões.
Escrito por Régis às 11h36
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BRASIL, Norte, RIO BRANCO, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Spanish, Esportes de aventura, Cinema e vídeo
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