Crônicas do Acre


Um triângulo em busca do prazer

Tudo começou como das outras vezes em que eles se encontraram. Era apenas um encontro formal. Ao menos no primeiro impacto. Já havia tanto tempo destes encontros, onde o contato inicial, per se, não causava qualquer alteração. Mas ele sabia da possibilidade de tudo evoluir para algo mais.
Em cada reunião entre eles, mesmo as mais formais, sempre poderia descambar para algo mais forte. Poderia ser uma explosão repentina ou mesmo uma evolução lenta e gradual na união dos três.
OK. Era um triângulo, onde cada ângulo tinha sua função pré-definida no resultado final. Mas cabia a ele a parte mais importante na relação. Mas não se entenda nisso qualquer traço de machismo. Até pelo fato de existirem outros estrelas de três pontas onde a parte principal cabia as mulheres. Mas isso era problema delas e de quem descrevesse a relação delas.
Havia momentos onde a relação entre eles era da maior frieza profissional. Mesmo que fosse prazerosa em certos momentos era, de certa forma, um ato mecânico engendrado apenas para atender os interesses de outros. Mas até daí poderia haver alegria. Contudo, houve muitas vezes (e haveria ainda muitas outras, disso ele tinha certeza) em que tudo era apenas a automação da mente e do corpo para atender a algum pedido.
Mas da formalidade inicial do contato ele fez com que uma das duas outras passasse a se esfregar sobre a terceira. Esta, estendida sobre a mesa, sempre era a passiva na relação, cabendo a ele e a outra companheira a parte ativa. Mas mesmo a que exercia a função passiva tinha uma participação fundamental na relação, pois sem ela, não haveria o prazer final.
Inicialmente os movimentos eram lentos e um tanto exploratórios. Mas, nesse vai e vem de uma sobre a outra, ele começou a sentir um interesse maior. Uma excitação que brotava dos recônditos mais obscuros do corpo. E da mente. Sim, pois daí surgia cada um dos passos e movimentos que ele implementaria ou experimentaria sobre as outras participantes.
Com o aquecimento inicial dele conduzindo o vai-e-vem de uma sobre a outra, sentiu a atividade se tornando mais forte. Pensamentos lúgubres e até pecaminosos passavam na cabeça dele, pois como um voyer ativo via a evolução do ato e podia antever o resultado de tudo, onde o prazer final levaria cada um ao seu devido lugar. Pelo menos até um novo encontro.
Em certos momentos, devido à ânsia de elevar a temperatura da atividade, chegavam até mesmo a deslizar por sobre a mesa que lhes servia de apoio naquele instante. É claro já ter havido momentos em que tudo fora feito em pé, com a mão dele servindo de apoio. Em outros momentos, foi em cima da perna. Até mesmo encostado na parede já haviam tentado, mas o resultado não era satisfatório e as falhas de um ou de outro eram comuns. Mas para ações fortuitas e rápidas, qualquer coisa servia.
Havia preferência pela luz e claridade, mas nem por isso deixavam se exercitarem à meia luz. Mas ele sabia que pelo menos alguns lumens eram necessários para tudo chegar a bom termo. Ao serviço deles penumbra não era bem vinda.
Enquanto a chama da relação subia, qualquer um poderia ver que ele, acima e comandando, era, talvez, quem mais se beneficiasse do ato. A que permanecia por baixo, era a mais sobrecarregada pelo esforço. Além disso, era nela que os outros dois descarregavam os seus interiores. A do meio, tinha um desgaste constante. E todo ápice do prazer sobrava a ele. Mas não podia ser descartado o benefício para os que vissem o resultado de tudo.
Se algo desse errado, tudo seria escondido da vista de todos. Se tudo corresse bem, ainda que dificilmente houvesse planejamento nesses encontros prazeirosos, todos teriam acesso ao resultado final.
Foi então que o escritor olhou para a folha de papel onde estivera escrevendo com sua caneta e, ao ler o resultado do trabalho, sentiu um imenso e imponderável prazer pela criação. Inconscientemente, agradeceu as duas, que, como das outras vezes, lhe serviram a contento. Mas, à espreita, havia um terceiro personagem: um computador. Este pronto para intervir e assumir a função se não de uma talvez das duas.


Escrito por Régis às 19h00
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Dilúvio

Tudo começara como sempre, com apenas algumas gotas a se precipitarem no vazio. Nos primeiros momentos até achara interessante acompanhar a queda daquelas pequenas porções de água a se deslocarem no vazio do compartimento onde estava. A água era a fonte da vida e vê-la caindo causava certo prazer.
No princípio não se incomodara quando aquelas bucólicas gotas se juntaram tal qual mercúrio. Até achou interessante o fato de parecer que elas se atraíam devido sua fraqueza individual até formarem pequenas poças. Assim, já mais fortes, procuravam uma saída e, no caminho, uniam-se às outras desgarradas e ficavam ainda mais poderosas.
Neste período inicial não atentou para o fato de que com o aumento da umidade tinha havido também uma proliferação de manchas. Estas cresciam e se multiplicavam em uma razão direta do aumento dos bolores no local.
Mas as pequenas partículas cadentes pareciam ter vida própria. Assim como podiam ser comparadas a bebês no princípio, também não continuaram a se desenvolver e passaram para o ponto de gotas adolescentes. Mas mesmo assim, o quadro por elas desenhadas ao redor dele ainda podia ser considerado como belo. Também não notou o fato dos móveis do local mudarem de cor, com alguns se desmanchando quase que por inteiro por conta da desagregação causada pela umidade.
Mas quando as gotas cadentes ampliaram-se e se tornaram pequenas cascatas em miniatura, já não achou a coisa tão interessante. Afinal, já restavam poucos locais onde pudesse ficar sem receber ao menos alguns respingos. Mas mesmo com a sessão de contorcionismo para fugir das mais agressivas, ainda era bom, pois com a chuva a temperatura havia se tornado mais amena e tolerável.
Mas um novo ciclo se instalou. E as pequenas cascatas cresceram. Já não havia mais local para se esconder. Onde quer que fosse, era encharcado pelo grande volume de água que jorrava praticamente de todos os cantos.
Suas roupas e calçados estavam encharcados. Alguns artefatos que antes jaziam pelos cantos do compartimento já se deslocavam de um lado para outro ao sabor do movimento das águas.
Uma coceira no nariz, seguida de um espirro. Um calafrio que lhe fez o corpo tremer como um todo. A roupa encharcada a lhe reduzir ainda mais a temperatura corporal. Tudo levando a crer que um resfriado ou mesmo uma gripe se avizinhava.
Lá fora o tempo ribombava em trovões azulados, revelando que a tempestade ainda não atingira seu pico. O vento também trazia sua contribuição para tornar tudo ainda mais insalubre, jogando mais e mais gotas de água e umidade para o local. Tudo se acrescia ao espaço já tomado pelas cachoeiras.
Um novo calafrio, desta vez um misto de tremor e terror por conta da situação que já se mostrava um tanto fora de controle. A cama já era apenas um charco, de onde a água já escorria por força da gravidade e buscava juntar-se ao restante. Tudo parecia estar chegando ao seu clímax. O ponto de onde não haveria mais volta. O local onde os meninos se separam dos homens. O lugar das decisões importantes e definitivas.
Foi a aí que ele levantou os olhos para o teto do quarto, onde a única lâmpada balouçava sob o vento. Prestou bem atenção nos locais de onde vinha a água. Olhou para os locais por onde o vento empurrava as gotas de chuva de forma direta sobre ele. Chegara o momento.
Levantou-se, abriu a porta do quarto e foi dormir na sala. Com a identificação dos pontos onde estavam as goteiras, decidiu que na manhã seguinte subiria ao telhado e consertaria as goteiras. Mas, por hoje, o sofá da sala deveria bastar.

Escrito por Régis às 14h37
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Degradação e morte

Eu sempre passava por cima de onde ele estava e o via movimentar-se logo abaixo da ponte. Nas primeiras vezes pouca atenção lhe dei. Mas com o passar dos anos dessa convivência pacífica, comecei a notar e a lhe dedicar um ou outro olhar mais detalhado. Mas mesmo hoje não sei exatamente de onde ele vem.
Mas voltando ao transcorrer do tempo, pude testemunhar o agravamento de sua doença. No começo foi apenas certo turvamento, um escurecimento superficial. Mas mesmo assim era possível sentir-se a vida em seu interior. Não era um aspecto dos melhores se comparado a outros em situação semelhante, mas ainda assim não causava maiores problemas. Se não era o melhor, ficava longe de ser o pior.
Seguindo, vi quando, há cerca de cinco ou seis anos, por conta de uma ação da Prefeitura, houve uma melhora incrível em seu aspecto. É claro que o fato não se deu de um momento para outro, mas de forma lenta e gradual. Primeiro foi o clareamento e a melhoria do cheiro. Aos poucos já era possível passar pelo local onde ele fica e não precisar virar o rosto para outro lado na tentativa de se omitir dos problemas por ele enfrentados.
Pouco depois já foi possível mesmo olhar diretamente para ele. Desse momento em diante as pessoas até mesmo já admitiam certo conforto ao passar pelo local. Um pouco depois, cerca de um ou dois anos, já era realmente agradável conviver com ele. Já não havia mau cheiro e podia se sentir a vida em seu interior. Sim, que passava pelo local se espantava pela mudança ocorrida em tão pouco tempo. Era como se um doente em avançado estado de degradação e, por que não dizer, condenado à morte, voltasse a uma vida normal. E as pessoas se felicitaram por morar vida e beleza debaixo daquela ponte.
Mas, tão logo houve este verdadeiro milagre, tudo voltou a ser como antes. Na realidade, tudo ficou ainda muito pior. Como se o interregno de saúde, vida e beleza nunca tivesse existido.
Tão logo como fora a ação do Poder Público Municipal em defendê-lo, fora a ação para abandoná-lo. Os remédios aplicados para salvá-lo deixarem de ser aplicados. E, como um porco que retorna ao seu lamaçal, ele começou a definhar novamente. E numa velocidade não vista nos outros momentos de dificuldade.
Em cerca de dois anos era como se nada tivesse sido feito. Foi como se o relógio andasse para trás e ao chegar ao ponto ruim voltasse ao curso normal. Só que mais acelerado. E a degradação foi visível.
Houve um rápido turvamento. Que se transformou em negrume. Depois o cheiro. O mau cheiro. Que virou insuportável. Nauseabundo. Podre. Era um misto do odor de fezes e urina.
Não era mais possível olhar para ele. Eu, como os outros, sempre que passava por cima de sua ponte, virava a cara e torcia o nariz. Mas não fazia nada. Apenas assistia a decadência e o martírio. Enquanto isso, ele agonizava ao alcance de minha mão.
Agora, quando estou a escrever esta crônica, fico a pensar quem poderá salvar o Igarapé Dias Martins. Sim, este é o nome dele. O pequeno curso d’água que cruza o parque Zoobotânico da UFAC, passa por debaixo da BR 364 e deságua no Igarapé São Francisco está agonizando.
Se há pouco tempo era possível ver-se os peixes em suas águas claras (após a construção da Estação de Tratamento de Esgotos do Bairro Mocinha Magalhães), agora é apenas um espaço de águas pretas, em cima do que fica uma nata esbranquiçada. Em seu interior não há mais vida. Os peixes que não puderam fugir morreram.
E tudo isso devido ao fato de uma bomba elevatória ter dado problema. E ninguém faz nada para arrumar. Com isso o esgoto das cerca de 1,4 mil casas do Conjunto Universitário deságuam diretamente no pequeno igarapé sem qualquer tratamento. E, assim como eu, o Poder Público (e o Ministério Público) não faz nada. Espero que após este lamento, alguém faça algo por este manancial. Espero que um dia eu possa ver novamente os peixes e a vida no local.


Escrito por Régis às 15h45
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Suicida

Fora mais uma noite insone. Como em tantas outras, ficara a perambular de um lado para outro. Se alguém lhe perguntasse por onde andara, não saberia dizer. Não tinha idéia nem mesmo se realmente caminhara ou mesmo se saíra do lugar. Afinal, todos os lugares eram iguais nos últimos tempos.

A isso se somava a incapacidade de sentir cansaço. A sensação de estafa muscular já não lhe acompanhava mais. Era como se as suas fibras tivessem se transformado em ligamentos do mais puro aço. Não importava a distância. Se é que andava.

O dia já clareara havia algum tempo. Agora com o Sol já tendo espantado os últimos negrumes da noite, começava um novo dia. Um novo dia com a mesma cara do velho. De muito velho. Mais um período igual a tantos outros. Apesar da intensidade do Astro Rei não sentia mais calor. Era como se cada uma das terminações nervosas de seu corpo tivesse deixado de notar as variações climáticas. Frio ou calor já não importava mais. Nem mesmo se recordava quando fora a ultima vez que sentira frio. Havia sido frio na noite anterior? Não sabia. Ou não lembrava. Tanto fazia, pois quando não se valoriza a sensação, não importa se elas - as mudanças - ocorrem ou não.

Já estava cansado disso tudo. Cansado de não ficar cansado. Como era estranha a situação. Queria sentir frio para poder se aquecer no sol. Queria um ar-condicionado para poder se refugiar do calor. Insatisfação. Incoerência. Características humanas.

Mas o drama não acabava aí. O que mais lhe incomodava era a indiferença das pessoas para com ele. No começo, dada sua personalidade arredia e tímida, não sentira falta. Até gostava do fato da multidão não ‘dar bola’ para ele.

Mas com o passar do tempo tudo fora ficando mais difícil. Era como se a solidão fosse um ser silencioso ao lado dele. Quase física. Tangível. Irritantemente quieta. Muda tal qual um cadáver. Não conseguia entender.

Enquanto pensava estas coisas veio-lhe à cabeça a idéia de dar um fim em tudo. Acabar com aquele sofrimento. Dar um basta na solidão metendo uma bala na cabeça da solidão e atingir a sua própria na seqüência. Mas, assim como veio, a idéia se desfez.

De repente, ficou a pensar quando fora a última vez que repousara para valer, ou seja, dormira. Não tinha a menor idéia. A sensação estranha voltou novamente. Não dormia – ou não lembrava de ter dormido, mas também não sentia sono. Até por não mais noção de tempo. Um dia era apenas o outro lado da noite. Apenas o pólo positivo do negativo.

Vendo as pessoas se movimentando, indo de seus lares para seus trabalhos, ficou pensado o que acontecera com ele, pois não tinha casa nem trabalho. Mas também não sentia falta de nenhum deles. Era como se isso não tivesse a menor importância. Ou talvez tivesse, mas no momento não importava. Não mais.

Pensou em dar uma volta e tentar se comunicar. Tão logo pensou agiu. Partindo em direção ao mar de pessoas a se movimentar em sentido contrário ao seu, avançou diretamente. Mas eles passaram por ele. Como se simplesmente ele não estivesse ali. Trespassado.

Desesperado, começou a gritar. Aproximou-se de vários transeuntes e proferia palavras diversas, desde pedido de socorro até os mais escabrosos palavrões e ofensas. E nada.

A dor da solidão se faz pungente. Doeu como uma lança a trespassar-lhe o corpo inteiro. Na realidade, era como se todas as lanças do mundo estivessem sendo cravadas em cada poro. Não sentia as dores e sensações físicas, mas as da alma eram absurdas e muito acima do tolerável. Eram as agonias do espírito. A dor daqueles que não tem a quem recorrer. A dor dos solitários. E a idéia voltou.

Decidido a se suicidar, andou em direção à rua. Ficou a olhar o trânsito e se descobriu pensando qual seria o veículo escolhido para por fim a seu drama. E ele veio na forma de um grande caminhão. Sem pestanejar, atirou-se na frente dele. Não estranhou o fato do motorista não ter feito qualquer tentativa de brecar. Também não estranhou o fato de não ter sido atingido. Afinal, fantasmas não morrem. Apenas sofrem suas solidões.

Escrito por Régis às 11h36
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Elogio à simplicidade

Em muitas Academias (leia-se Universidades) por este mundo a fora são comuns pessoas que se jactanciam de seus altos níveis de inteligência e de conhecimento. Usam seus diversos anos de estudo como forma de diminuir aqueles que deles se aproximam. O título vai primeiro. Não entro no mérito psicológico sobre a possibilidade de serem pessoas diminuídas em outros pontos do amadurecimento do caráter e, quem sabe, em outras partes físicas de seus corpos.

Estas pessoas, do alto de seus doutorados e pós-doutorados, são pedantes, arrogantes e incapazes de olharem para seus próprios pés ou mesmo suas origens. São recalcados e solitários, embora, às vezes, possuam um grupo de pessoas próximas. Mal amados.

É claro não ser isso uma regra, pois existem muitos doutores com humildade e capazes de manterem relações respeitosas com as pessoas mais simples. Mas não me alongarei sobre eles. Por enquanto basta.

O que me leva a escrever hoje é um funcionário da UFAC. Trata-se de um ex-seringueiro, que no passado sangrou árvores do gênero Hevea nos seringais da bolívia. Anos difíceis e sob a tutela de um governo que não o reconhecia. Segundo ele, não fora dos piores, alcançando produções da ordem de 500 kg de borracha ao ano. Isso o coloca entre os seringueiros medianos.

Como muitos outros servidores da velha guarda, entrou na Academia sem concurso antes da Constituição de 1988. E foi ficando (isso mesmo, foi e ficou, o estilo do texto nos permite estas aberrações), sem incomodar e sem ser incomodado.

Sem ter tido oportunidade de estudo é analfabeto funcional. Até hoje executa trabalhos menores, daqueles rejeitados pelos mais graduados. É o responsável por alguns pés de macaxeira nas proximidades da reitoria. Foi também responsável, em anos passados, por serviços braçais junto ao antigo Departamento de Ciências Agrárias, onde o conheci cuidando dos blocos para estudos de forrageiras (capins).

De compleição franzina e baixa estatura, é uma figura simpática e simples. Sempre cumprimentando a todos (às vezes mais de uma vez). Aqueles que tiveram a oportunidade de lhe apertar a mão verificaram as calosidades desenvolvidas por longos anos de esforços físicos. E como ele gosta de apertar a mão do interlocutor!

É claro que não é perfeito. De quando em quando toma algumas e sai a perambular sem rumo. Mas mesmo quando já está meio para lá do ponto de equilíbrio, o único defeito é pedir para alguém lhe pagar mais algumas. Fora isso, se for uma festa, fica dançando só e se divertindo da mesma forma. Por conta disso, às vezes é motivo de piadas.

Diversas hipóteses foram apresentadas por conta do apelido dele. Como não gosta delas, não escrevo nenhuma.

É uma criatura alegre, cuja simplicidade no ser e no agir deveria ser seguido por muitos nesta academia. Em sua simplicidade de vida nos ensina sem precisar de giz. Até seus erros são para nós aulas daquilo que não devemos ser. É uma boa pessoa. Independente de seus defeitos é merecedor de meu respeito e consideração.

Para quem não o conhecesse, este é o senhor Francisco Gonçalo Sobrinho ou, como muitos o conhecem, simplesmente seu “Chico Lepo-lepo”. Na simplicidade e humildade dele algumas pessoas desta academia deveriam se inspirar, principalmente quando tratam os outros. Muitos resultados de ações recentes, cujas avaliações ‘científicas’ hoje apontam em outras direções, seriam diferentes se os atores se espelhassem na singeleza e respeito deste nobre cidadão.

Aquele que talvez seja o menor na Academia, quem sabe seja quem mais tem a ensinar em termos de vida e no trato com outros seres humanos. Talvez resida nesta espécie de metáfora aquilo que Cristo disse com relação de que os humildes herdaram o reino dos Céus. Os outros nem mesmos os reinos da terra, pois não os sabem conquistar e, se os tomam, não os sabem conservar.



Escrito por Régis às 17h25
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Oposição garante sustentação

O grupo já estava reunido há algum tempo. Como sempre estavam todos enfileirados. Mas mesmo assim não havia ordem na arrumação. Se fosse com relação à altura via-se estarem nas pontas os menores, com os intermediários nas primeiras posições intermediárias. O mais alto ficava ao meio.

Se a questão para uma arrumação fosse a força, novo desequilíbrio entre todos, embora os centrais se equivalessem em termos de capacidade física. Aliás, estes eram os mais parecidos entre si. Mas nas pontas ficava o desacerto. De um lado, o mais frágil, enquanto no outro extremo o mais forte.

Era um grupo de trabalho fadado a dar errado, pois não havia distribuição das forças ou sequer dos tamanhos. E como a maior parte do serviço era de esforço físico, não havia futuro para a mão humana.

Foi aí que o dedo Médio (o maioral), fez valer o seu tamanho. Apresentou-se ao restante do grupo como sendo o mais importante. Afinal, seu tamanho revelava isso, além de ser um dos mais forte. Chamou a atenção para o fato de, quando exigido, ser ele o responsável pela maior ofensa do grupo, onde os laterais se encolhiam e ele se projetava. O Fato de se reduzirem para ele aparecer, era a prova disso.

Por outro lado o Anelar (ou Anular, nome que disse não gostar de usar pelo sentido pejorativo) salientou ser ele o mais visto. Afinal, quem olha para outros se nele ficam os principais anéis e os símbolos dos maiores compromissos.

Nessa altura o mais fraquinho e mirrado do grupo, o Mínimo, entrou na discussão e disse também ter a sua importância, afinal qual é o dedo mais apropriado para pequenas e delicadas tarefas, como coçar o ouvido ou mesmo limpar cantinhos recônditos da narina? Ora, ele também se candidatava à vaga de mais importante, pois se faltava em força, sobrava em delicadeza.

Aqui surge então o Indicador, na sua vocação principal de apontar e identificar os outros. O dedo-duro afirmou estarem todos errados com relação as suas importâncias. Primeiro desancou o Médio, dizendo se este um trapalhão e deslocado no meio do grupo, cuja função começava e terminava na obscenidade. O anelar, se lhe tirassem as externalidades brilhosas, pouco lhe sobrava. Era como uma top model, mas quando lhe tiravam os adereços ficava reduzido a nada. Sobre o mínimo, disse recusar-se a falar, pois este era apenas o faxineiro dos cantos esquecidos, sem força ou glamour. Logo, ele, indicador, apontador desta leitura de funções, era o melhor.

Enquanto o clima esquentava, com todos já se ameaçando e querendo partir para o confronto físico, o Polegar interveio. Graças à sua força física, se impôs na discussão e determinou silêncio. Tão logo pode ser ouvido, falou.

“Vejam, vocês, o quanto estão errados. Todos são belos e formosos, ums mais altos outro mais esbelto. Eu, pelo contrário, sou aleijado, com uma falange fora de posição, a qual me deixa anão. Sou o mais forte, mas também sou o mais gordo. Minha unha é descomunal se comparada com a de vocês. Além disso, sou o único que de fato me oponho a suas ações. Com isso, eu que lhes empresto o vigor necessário para a maior parte das atividades”.

O polegar destacou um fato de ser a rotação da base dele, a qual de opõe aos movimentos dos outros, a responsável pela distribuição da força do conjunto. Sem oposição, o conjunto da mão não executaria tarefas tão importantes e belas. Mas ressaltou o fato de que, sozinho, a força e a rotação não serviriam para nada.

O grupo então fez silêncio. Havia finalmente o entendimento da importância individual de cada um, onde todos possuíam valores diferentes. Mas entendeu-se que sem oposição em todas as coisas não há estabilidade e que a diversidade é complementar quando há um interesse comum. Forças que somam e uma oposição forte são a chave de um bom trabalho. Independente da mão onde estejam.



Escrito por Régis às 19h00
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Fim de relação

Há quanto tempo estavam juntos?

Não soube responder a esta simples questão. Mas as voltas do ponteiro ao longo dos 360 graus do relógio ou mesmo os deslocamentos da terra em seu ciclo lunar (ou solar), pouco importa quando a relação foi gratificante. E esta havia sido recheada de momentos agradáveis.

Não lembrava como havia se dado o contato inicial. Mas, pelo que era possível rememorar, o primeiro impacto tinha sido negativo. Afinal, o visual dela não era dos mais finos. Na realidade estava mais para ordinária do que chique. Ou, talvez, simples que sofisticada.

Não soube dizer, pois se houvera algo mais, não foi levado em consideração, exceto a possibilidade de que ela atendesse aos anseios dele quando e onde fosse requisitada.

Mas ele lembrava-se do trabalho dela nos primeiros contatos. Era até mesmo gostosa se tocar, embora seu corpo não fosse dos mais torneados, sendo longilínea onde deveria haver curvas. Contudo, desincumbia-se galhardamente quando era solicitada.

Não que não tenha se interessado por outras, bem mais elegantes e preparadas. Mais bonitas mesmo. Mas para que essa ‘chiqueza’ toda, se no final o serviço prestado seria o mesmo? Mas tinha de admitir a beleza das outras, mesmo que isso significasse investimentos maiores em tê-las. Mas, se vida é mesquinha, o que se há de fazer?

Afinal, no serviço, quando jovem, era macia e deslizava como uma gueixa bem treinada para atender aos anseios de seu senhor. Não importava a posição solicitada para cumprir sua função natural. À esquerda ou à direita, sempre estava pronta, exceto quando era posicionada de forma contrária à gravidade, momentos que um certo ‘desequilíbrio’ passageiro lhe impedia de trabalhar, mas tão logo era devolvida à posição correta, voltava com toda a força.

Quando o assunto era trabalho, não ficava a dever às suas congêneres mais sofisticadas. Mesmo sem pompa ou aparência, executava o mesmo serviço quando o tema era profissionalismo.

Na companhia dela, rememorou, foi capaz de percorrer o mundo, deslizando pelos diferentes países, sem importar-se com as fronteiras desenhadas por outros. Juntos pousaram em diversas cidades e lugarejos, que de tantos, já não mais se recordava.

Juntos, pagaram contas e assumiram compromissos. Esteve com ele nas alegrias, nas farras e nas despedidas. Até mesmo nas cartas de amor ela fora fundamental.

Porém, com o passar do tempo, findo viço da juventude, tornara-se um pouco resmungona e nem sempre respondia quando solicitada. Quando esfriava, demorava a entrar em condições de trabalho. Era necessário friccioná-la, o que nem sempre era de bom alvitre quando em público.

Várias vezes fora motivo de chacota por ter de esfregá-la em público. De forma reservada ou mesmo aberta, alguns amigos já haviam sugerido que se desfizesse. Não deveria ser visto em público com uma companhia daquelas, pois sequer atuava como deveria, fosse com ele ou com os outros a quem servia esporadicamente.

Durante um tempo ele ainda se manteve fiel, mesmo com os conselhos em sentido contrário. Mas com o decorrer do tempo começou a se cansar. Afinal sua estética estava ficando decrépita, já sem nenhum brilho e parte superior já demonstrando todos os sinais de uso. Em suma, estava velha. Ultrapassada. Sem utilidade.

Assim estava ele pensativo, quando, num impulso digno de uma tragédia grega, soergueu-a com a mão, aproximou-se da janela do apartamento e a arremessou pela janela do décimo andar. Por alguns instantes ela flutuou no ar, como a se despedir daquele a quem servira e, depois, caiu desaparecendo no gramado abaixo. Ele então decidiu que não poderia ficar sem uma igual e, na manhã seguinte, iria até o jornaleiro e compraria outra caneta esferográfica barata.



Escrito por Régis às 19h07
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Sabe Moço ...

O xirú velho enrodilhou-se mais que rabo de guaipeca. Também pudera, o minuano passara a noite toda soprando e, naquele momento, na adolescência do século XX, cortava mais que língua de sogra. A presença do vento tinha como alento apenas o fato de não se formar geada, o que deveria ocorrer em algumas horas ou mesmo dias. Mas a baixa temperatura chegava-lhe até aos ossos já afetados pelos anos.

O índio velho bombeou as coxilhas no horizonte, como que espera uma carga de lança e espada ou, ainda, de uma carga de cavalaria. Passou a língua pelos lábios grossos (resultado da mistura castelhana, negra e índia), enquanto enchia o a cuia com água quante, para tentar aquecer o pelo duro de taura sulino.

Enquanto sorvia e degustava o mate-amargo, concentrando-se no sobrenadante, recordou-se das diversas lutas e revoluções em que se metera.

Ainda piazito, fora Maragato na ‘Federalista’ de 1893, seguindo Silveira Martins, embora não entendesse muito sobre o porquê da briga. Mas se a peleia estourara, estava no meio dela, sempre seguindo o repiquetear de um clarim e a um coronel.

Já na de 1923, já não era mais menino. Na realidade era entradito em anos, mas mesmo assim fôra partidário de Borges de Medeiros, deixando os maragatos de lado e virando Chimango. Com o estouro da 1930, velhusco e com o couro curtido pela vida campeira, voltara a pegar em armas de forma mais clara. Não que tivesse o mesmo viço de cambuim, mas a guajuvira sempre deu bom cerne. E era esse o potencial sempre buscado pelos coronéis.

O problema é que, como sempre, quando o cheiro acre da pólvora se perdia no ar e o sangue vertido secava no solo, somente as viúvas e órfãos lembravam daqueles que se foram na peleia.

Para alguns sobreviventes de tantos entreveros como o xirú velho (sim, pois estes foram apenas os maiores onde andou terceando ferro e sapecando melenas), muito pouco restou.

Se para os grandes chefes, seus chefetes, comandantes e ordenaças sobraram medalhas, brazões, cartas e recomendações, posse e mimos, não importando se a guerra fora perdida ou ganha, para a xiruzada nada ficara. Mas foram estes aqueles que mataram ou morreram nas e na campanha. Era os corpos deles que ficaram estirados na relva.

O índio passou a mão pelo corpo. Quantas cicatrizes. Algumas eram de trabalho, como ‘queimadas’ por laço que trocou de lado e correu por cima do corpo, alguns aspaços de touro alçado. Mas a maior parte eram mesmo resquícios dos entreveros das revoluções. As cicatrizes de batalha foram o único saldo das batalhas travadas.

Estocadas de espada, talgaços de facão, pranchaço de adaga, cutucão de baioneta, caminho de bala e, como se não bastasse, saldo de porretadas com os mais diversos objetos nos momentos em que se foram as armas.

Pensou que cada cicatriz tinha uma história, as quais poderia contar aos netos, se oa menos tivesse um. É, por causa da vida gaudéria, largado a la cria, as únicas mulheres a lhe aquecer o pelo na juventude foram as de vida fácil. O resultado disso era uma solidão tão gelada quanto o minuano gemendo na cumeeira da tapera.

Mas, pensou ele, se eu tivesse ganhado medalhas ou cartas, o que teria feito com elas? Teriam sido trocadas por algum trago de canha? Seriam esquecidas caídas debaixo de alguma cama no chinedo? É bastante provável.

Repassando as marcas no corpo, entendeu estar ali a maior de todas as medalhas, marcadas de forma indelével no seu corpo pelo valente inimigo vencido, tal qual a marca a ferro que um terneiro leva por toda a vida. Ostentada com orgulho, cada cicatriz era como uma homenagem aos outros combatentes de bandeira diferente. E sentiu orgulho pelos feitos, ainda que com amargor pela vida esvaziada pelas lutas alheias.

Crônica baseada na Música Sabe Moço, de Leopoldo Rassier. As expressões gauchescas possuem hiperlink para esclarecimentos.



Escrito por Régis às 20h18
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O a-bafafá

 

Esta história chegou aos meus ouvidos por uma pessoa de confiança, que teria ‘bebido’ diretamente na fonte.

Segundo o que me foi contado, há cerca de alguns dias uma autoridade do Estado precisou de tratamento médico de urgência. Esta pessoa é bastante conhecida dos movimentos e com passagem pelo Legislativo e atualmente ocupa um relevante posto na ordem pública do Acre.

Mas voltando ao caso, esta pessoa ao sentir um problema físico foi até o Pronto Socorro do Hospital de Base para ser atendida. Cria esta pobre criatura que há realmente uma saúde de primeiro mundo neste rincão de Galvez.

Ao chegar no local, foi pronta e rapidamente atendida, pois é bastante conhecida. Ela recebeu aquilo que mais poderia se aproximar de uma saúde de primeiro mundo, com médicos, exames e medicamentos na hora em que deles necessitou. Teria certeza de haver uma saúde primeiro mundo se não fosse por um pequeno problema a lhe chamar a atenção: uma criança que chorava muito, mostrando no pranto toda a dor sentida.

A pessoa importante então tentou saber junto aos médicos de primeiro mundo que atendiam no local qual seria o motivo de tamanho e tão sentido choro. Ao questionar os nobres senhores da saúde foi informada por eles de que tudo já havia sido resolvido, com a criança já tendo sido medicada e faltar apenas os remédios fazerem efeito.

Nosso herói (ou heroína) entro em contato com os pais da jovem vítima, tomando ciência de que todos residiam na zona rural e que a criança era portadora de deficiência mental e não falava.

Ocorre que durante o tempo em que esteve no local, nosso representante não notava melhoras no jovem paciente, com os gritos lancinantes ecoando pelos corredores e salas. Insatisfeito com o tratamento, nossa pessoa conhecida entrou em contato imediato com os representantes do Ministério Público Estadual, que mesmo sendo já de noite, acorreram ao hospital para verificar o ocorrido.

Os valorosos membros do MP pressionaram os médicos (que já haviam atendido à criança) para que verificassem.o motivo.

Então surge mais um exemplo de como a população do terceiro mundo é tratada pela saúde de primeiro mundo: a criança tinha vermes (bicheira ou ‘tapuru’, na linguagem local). Bastou apenas usar medicamento tópico (no local), retirando o corpo estranho, e tudo ficou mais calmo.

Se não fosse a presença de uma autoridade no local, a criança teria continuado a sentir dores e, pelo informado, perderia a audição. E depois de tudo isso, autoridade pública em local público, presença do MP, nada e NADA foi divulgado em nossa ex-briosa imprensa.

Fica então a indagação: É preciso as autoridades fazerem plantão no Pronto Socorro da cidade para a população ter um tratamento mínimo? E quando isso não ocorrer? Qual será o destino da comunidade acreana?

PS: Se a autoridade assumir publicamente a autoria dos fatos, divulgo o nome.



Escrito por Régis às 15h36
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Morte de índios – uma história não contada

Funai/AP

Leio em matéria publicada pelo site http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2008/05/29/ult5772u19.jhtm que Índios de tribo isolada são fotografados pela primeira vez no Acre por uma expedição aérea realizada pela Frente de Proteção Etnoambiental da Funai (Fundação Nacional do Índio) na divisa do Estado do Acre com o Peru . O coordenador do grupo foi o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, a existência desses povos já é conhecida desde 1910.

Ao ler esta matéria me recordei de meus tempos de Assessor da Comissão Pró-índio do Acre, nos idos de 2004. Naquela época fiz duas viagens a reservas indígenas, sendo uma no alto rio Purus (etnia Kaxinawá) e outra no alto rio Yaco (etnias Jaminawá, e Manchineri – AI Mamoadate). Nesta, vive 74 dias em cinco aldeias, sendo uma Jaminawá e quatro Manchineri. Jaminawá são do tronco lingüístico Pano e os Manchineri Aruak, predominantes na região.

Na maior das aldeias Manchineri (Extrema) fiquei a maior parte do tempo. Esta era a mais distante, localizada próxima à fronteira com o Peru. Por conta desta proximidade, fomos orientados a não empreendermos atividades (como caçadas) nas áreas acima, pois havia registro de índios arredios (brabos).

Mas como sempre, em locais isolados, no cair da noite e nos horários de folga, é comum as conversas e a ‘contação’ de histórias e fatos, um dos quais passo a repetir aqui. Mas ressalto que não tenho confirmação final dos fatos e o que reproduzo me foi contado por índio chamado “Otávio” e confirmado por outros. Vamos à história:

Segundo foi contado, ainda nos anos 80 o sertanista Meirelles (citado acima) estava trabalhando na região. Na época teria recebido a visita do pai e para mostrar-lhe um pouco da região teria subido o rio Yaco até a fronteira do Peru, na região do igarapé Abismo. Esta região é desabitada e por isso tem uma fauna rica, sejam peixes ou caça farta.

O grupo era composto pelos Meirelles e mais dois ou três índios. Levaram linhas de pesca, algumas armas de caça de alma lisa (espingarda) e um rifle calibre .22. Depois de alguns dias de pesca, o grupo estava próximo do acampamento quando se deparou com um grupo de índios arredios, que nus e armados de arco, flechas e bordunas, se aproximava ameaçador pela praia do rio.

Foi tentado um contato nas línguas Aruak e Pano, sem qualquer reposta por parte dos índios. Meireles teria então avisado para recuar, pois o clima era tenso. Isso mesmo com os índios já estando entre eles e o acampamento. Em um dado momento os índios partiram para o ataque, sendo feitos alguns disparos de espingarda para cima, mas isso não arrefeceu as intenções.

Foi nesse instante em que o pai de Meirelles ficou para trás. Um índio teria então se aproximado a distância de tiro de flecha e apontado para ele. Sem outra alternativa, o sertanista teria atirado e matado o índio. Com isso, o grupo ganhou tempo, pois os outros recuaram. Meirelles e os outros fugiram nas canoas.

Algum tempo depois (pode ter sido horas ou dias, pois não recordo), voltaram ao acampamento. Os índios arredios haviam destruído tudo e espalhado as coisas ao redor. Muito pouca coisa foi levada. Havia um corpo enterrado na praia. Desde esta data se recomendava na aldeia que se andasse pelo local.

Segundo Otávio, ele ia periodicamente ao local para verificar havia rastro dos ‘brabos’, o que teria sido visto no ano de 1994, quando estivemos no local. Otávio jurou que os fatos eram verdadeiros, mas nunca pude confirmar realmente com outra pessoa. Se foi verdade ou apenas uma história de índio para impressionar um visitante, não sei. Apenas reproduzo da forma como me lembro da história.

 

PS: Depois de postar a história descobri que Meirelles relatou o caso à Funai e que não era o pai dele, mas o futuro sogro. Assim, o caso foi verídico.



Escrito por Régis às 16h22
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Uma luta com o vagabundo

Naquele dia, logo ao acordar, teve a consciência de pesadas nuvens no ar de seus aposentos. Eram nuvens imaginárias, de mais uma noite mal dormida e de um despertar contra a vontade. Mas a faina diária tinha de ser cumprida, mesmo com a certeza de que mais ou menos horas teria de haver o encontro entre os dois e, do resultado, pouco esperava de alentador. Enquanto isso, o outro permanecia em sua preguiça e recusava-se a acordar para trabalhar.

A manhã passou sem maiores atropelos, afora uma constante abertura da boca e dos olhos marejados logo na seqüência. Tudo coroado por uma falta de concentração. Se o encontro não se dera logo cedo, ele sabia ser em seguida do almoço o momento do embate. Sabia que pelo silêncio a coisa não estava boa.

Na hora do almoço, a presença do outro se fez notar. Isso gerou um incomodo, ainda que passageiro. Mas também serviu para anunciar o momento do acerto de contas entre os dois. E o resultado ainda era uma incógnita revestida de perspectivas pouco favoráveis.

Por volta das duas da tarde, não teve mais jeito e ele teve de encarar o problema de frente. Não dava mais para postergar o fato do outro não cumprir a sua parte na convivência harmônica há muito estabelecida entre eles. Aliás, já nem se lembrava da última vez em que houvera problemas entre eles. Exceto por algumas sujeiras, cheiros e sons pouco agradáveis em momentos de aperto, tudo tinha estado dentro de uma convivência pacífica e harmônica entre as partes.

Mas tudo mudara recentemente. E não dava mais para esperar por uma solução pacífica, pois todos os remédios já haviam sido utilizados nos dias anteriores. E nada. Simplesmente não havia respostas.

E encontro veio. Quando se defrontraram no local e momento propício, ele abriu o verbo contra o outro. Não agüentava mais a preguiça e a falta de mobilidade. Isso o estava deixando transtornado e inchado, como se fosse um sapo do tipo cururu (sapo venenoso existente no Brasil, da espécie Bufo marinus) ao ser cutucado. Tudo dito diante do maior silêncio.

Alegou já ter levantado cedo e tentado acordar o outro para o trabalho. Disse ainda que preguiça dele terminaria por matar os dois. Gritou não ser um comportamento normal e os que viviam na normalidade atuavam diária e regular. Como resposta apenas um leve e silencioso movimento.

Pôs-se a gritar, já desesperado com a falta de repostas. Ameaçou levar tudo ao conhecimento do médico. O problema já estava passando dos limites.

A pressão exercida por ele contra o preguiçoso já passara para a forma física. As veias do pescoço intumesciam-se, enquanto ele suava com o esforço. Palavras desconexas proferiam pela boca, onde, em dados momentos, percebia-se um verdadeiro rosário de palavrões.

Tentou um movimento brusco para frente, como forma de pressão, mas nada. Tentou uma abordagem lateral sem resultado. Experimentou saltitar e ver se os impactos funcionariam. Nada. Já sem forças e com os olhos esbugalhados pelo esforço, pensou em desistir e apenas deixar a vida seguir seu rumo.

Mas de repente, quando nada mais parecia dar jeito, sentiu uma pressão forte por parte do outro, um ruído surdo de quem se prepara para um trabalho pesado. E então sentiu os intestinos funcionarem plenamente, livrando-o do problema que o acometia já há alguns dias. Prometeu a si mesmo que nunca mais comeria farofa feita com muito óleo, pois tinha certeza de ter sido isso o causador de todo o problema. Refeito do susto e um pouco mais apresentável, levantou-se do vaso sanitário onde estivera sentado, lavou as mãos e seguiu sua vida normal.



Escrito por Régis às 19h01
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Exercício de matemática – multa é a solução

Leio na coluna Bola Dividida da página de esportes do jornal Zero Hora (11/02/2007), do jornalista Mário Marcos de Souza, mas escrita pelo Interino (aliás, este cidadão escreve em tantas colunas e trabalha em tantos locais diferentes que é difícil explicar tal mobilidade) uma com o título ‘Cuspiu, pagou’.

Nela o jornalista revela que se a tática de impingir dor ao bolso funcionar, os turistas que forem à Pequim para os Jogos Olímpicos de 2008 estarão livres de testemunhar um dos mais arraigados costumes chineses: cuspir nas ruas. Quem for flagrado desferindo cusparadas em vias públicas terá de pagar multa de 50 yuans (R$ 14). Pouco? Não na China. Dá para pagar cinco ou seis meses de gás de cozinha por lá. Sem falar na parte higiênica: 1,3 bilhão de cuspidores em potencial não é brincadeira

Ao ler tal matéria veio-me um expediente que muitos de nós temos, ou seja, fazer contas. Então pensei que uma cusparada tem aproximadamente (dados puramente inventados) um centímetro cúbico (cm³) ou um mililitro (ml). Ou seja, seriam necessários mil cusparadas para encher uma garrafa de um litro (760 para a de cerveja). Enquanto se pensa assim, muito pouca atenção se dá para o fato.

Mas, para ser mais preciso, abri um arquivo em uma planilha eletrônica e multipliquei 0,001 litro pela população chinesa (1,5 bilhões). O resultado foi espantoso: 1.500.000,00. Ou seja, um milhão e quinhentos mil litros de saliva. O suficiente para encher as caixas de água (500 litros) de uma cidade de 15 mil pessoas (cinco por casa). Ou ainda quase para encher uma piscina olímpica (50m x 25m x 1,5m).

Por outro lado existe a questão da multa. Se levarmos em consideração que o cidadão será multado uma única vez e se arrependerá, sem mais o fazer, teremos a bagatela de R$ 21 bilhões ou então US$ 10 bilhões. O orçamento da maior cidade do Brasil, São Paulo, foi de R$ 17,233 bilhões em 2006 (perto de 10 vezes o do Estado do Acre).

Assim, se todos os chineses derem pelo menos uma cusparada por ano teremos como encher a única piscina olímpica do Acre e como sustentar o Estado por 10 anos, dobrando os recursos anuais e solidificando o desenvolvimento local sem que seja preciso cortar uma única árvore.

Se o mundo é para todos e os chineses estão poluindo o mundo (se não com emissões tóxicas com produtos piratas, de qualidade duvidosa e com mão-de-obra escrava ou análoga), nada mais justo que pedir a eles que dêem uma cusparada em prol da defesa da hiléia acreana.

Se o raciocínio da multa for aplicado aos americanos (300 milhões) durante o mesmo ano, mas com uma multa maior (US$ 60, pois poluem mais e tem um padrão de vida maior que o chinês), ter-se-ia um valor semelhante.

Segundo as estatísticas referentes 99, a população da UE era de 546 milhões de pessoas. Se pegar-mos este valor e aplicar-mos uma multa ambiental de €$ 45 teremos um valor de R$ 24,6 bilhões (€$ 8,5 bilhões).

Se somados estes recursos o Estado poderia triplicar sua folha de pagamento (que tal contratar 50 mil fiscais ambientais?) e os seus investimentos (parques e passeios por todas as cidades do Estado). E ainda sobraria algum para investir em algo realmente produtivo (não que a proteção da floresta não o seja).

Ou seja, para o Acre se desenvolver sem agredir a floresta, basta apenas que cada um dos cidadãos do primeiro (e da China) mundo pague por esta proteção. Qualquer coisa além disso na ótica atual vai significar dezenas de anos de atraso, ao menos para massa desnutrida física, cultural e socialmente.



Escrito por Régis às 18h56
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O fugitivo

Gritos.

Por toda parte ouvia gritos. Ordens gritadas, pessoas correndo. Gritos de dor. Pavor. Tensão. Passos de botas. Tudo absurdamente apavorante. Tentando ser discreto ao máximo, foi ao local de onde pensava vir os barulhos. Nada. Apenas um silêncio tão grande a ponto de ser algo palpável.

De volta ao local onde estava, acalmou-se e sentou. Já fazia algum tempo desde a primeira vez que ouvira aqueles sons. Quanto tempo? Já não lembrava. O tempo era apenas um detalhe sem importância para quem não tinha nada para fazer.

No começo ainda tinha as lembranças de sua vida. Mas depois uma mancha começou a se formar na cabeça dele. Ela se solidificou no local onde estavam as recordações e havia apenas um espaço oco em sua cabeça. Os centros de memória eram apenas como um quarto totalmente escuro e vazio. Não como se não tivesse algo dentro, mas como se, mesmo que estivesse entulhado de coisas, esses objetos de nada e para nada servissem.

Não tinha idade, pois isso implicava em dizer ter havido um passado. Mas estes detalhes repousavam no canto mais ermo do quarto escuro das lembranças.

De repente ele foi atingido em cheio por uma luz fortíssima. Era uma luz fria, branca e forte. Densa como um nevoeiro forte. Uma coisa táctil. Tentou correr, mas o corredor onde estava era pequeno e não foi muito longe. Encolheu-se a um canto e ficou esperando ser esmagado. Mas nada aconteceu e a luz desapareceu.

Conseguira escapar mais uma vez. Não sabia por quanto tempo ainda poderia escapar deles. Sentia-se oprimido. O ar lhe faltava. Palpitações cardíacas. Os pés gelados e as mãos suando. Precisava fugir daquele local antes de desmaiar.

De repente um barulho distante de portas batendo. Conversas quase inaudíveis. Um grito abafado. Um barulho de algo caindo. Procurou outro local para se esconder e correu para o lado oposto da sala, onde ficou de cócoras.

Silêncio. Agora o silêncio se tornava tão preocupante quanto os barulhos. Nada. Era como se todos os sons do mundo tivessem sido sugados por um ciclone e depositados muito além da percepção dos sentidos.

Procurando não fazer barulhos para despertar a atenção, foi até a porta interna. Fechada e sem as chaves. Por ali não dava para sair. Pense. Mas a cabeça vazia não ajudava. Olhou em volta e viu, do outro lado da sala, uma outra porta. Foi até lá, quase correndo e já sem se preocupar com o barulho. Mas esta também estava trancada.

Então os barulhos voltaram. Passos, gritos, ordens. Desordem, balbúrdia. O resultado de tudo isso foi o terror a crescer e se espalhar pelo corpo do fugitivo. Precisava sair, de qualquer jeito. Mas as saídas estavam bloqueadas. O barulho cresceu. Soube que era atrás dele que estavam desta vez. Viu um local para se esconder e correu para lá e ficou imóvel.

De repente a porta principal se abriu e ele viu centenas de inimigos entrarem armados. Luzes se acenderam por todos os lados. Fachos de lanternas varriam os cantos escuros. Sentiu um calor tremendo. Começou a suar. Ficou molhado em questões de segundos. Um cheiro insuportável lhe invadiu as narinas quando ele ocultou a cabeça entre as pernas. E ele desmaiou.

Foi assim que os dois enfermeiros que entraram na sala encontraram o fugitivo: catatônico, sentado atrás da quentíssima caldeira de roupas da lavanderia do sanatório, no chão e em posição fetal. Para completar o quadro, havia defecado e urinado na própria roupa. Foi medicado e levado de volta para o quarto. Desta vez os enfermeiros se certificaram de ter trancado a porta, pois o esquizofrênico poderia sair novamente.



Escrito por Régis às 20h50
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Despertar

 

Frio. Essa foi a sensação primeira que ele sentiu ao começar a recobrar a consciência. Era um frio forte e lentamente tomava conta do corpo. A parte superior do corpo em decúbito dorsal era a mais fria, sendo um pouco menor na parte das costas.

Apesar da sentir a onda fria se espalhar, uma coisa chamava a atenção: na causava desconforto. Era apenas uma sensação. Ou melhor, uma certeza. Era como saber de algo próximo, muito próximo, mas cujas respostas orgânicas eram apenas a certeza da proximidade. E só. Não provocava tremores. Nada. Era apenas a presença do frio, como se este fosse uma pessoa ao lado. Estranho, mas não ruim.

Ta logo a consciência foi se tornando mais clara um outro ponto intrigante foi notado: o silêncio. Não um silêncio comum, como uma noite de semana. Não. Era como se um abismo tivesse sido escavado entre ele e o restante do mundo. E nesse abismo não houvesse nada. Só o vácuo. Mas o vácuo é máximo do vazio. Tanto a ponto do som não se propagar por ele, o vácuo. Nem mesmo o menor ruído ou farfalhar era ouvido. Sepulcral, pensou.

Mas a soma do frio crescente com o silêncio total dava um sensação de calma e paz. Até mesmo prazerosa. Diferente, mas gostosa de sentir.

Em seguida ele começou a lembrar de coisas já apagadas pelo tempo. A primeira foi o local onde guardara um chocolate quando criança. O doce nunca mais havia sido encontrado. Tinha uns três anos quando isso acontecera. A lembrança seguinte foi ainda mais estranha: uma queda em uma poça de água. Isso acontecera quando tinha dois anos.

E as lembranças não paravam mais de chegar. O gato amarrado no cachorro. O passarinho morto por uma pedra lançada pela atiradeira. A vizinha, já adolescente, nua e tomando banho, vista por uma brecha na janela. E aquele friozinho na barriga, cuja intensidade nunca mais se repetiria ao longo da vida.

O futebol com os amigos no campinho de várzea improvisado no terreno baldio. As brigas com os meninos das ruas próximas. O primeiro e terrível dia de aula, onde todos pareciam estranhos robôs com o a mesma lataria aparente.

A adolescência, há muito esquecida, também se fez presente, passando no turbilhão de recordações. Rosinha, o primeiro amor. Maria, o primeiro beijo – ainda com gosto de cuspe e estranhamente gostoso. A primeira excitação verdadeira, com a revista furtada por um colega das coisas do pai deste. As então famosas “revistas suecas”.

Tantas recordações esquecidas. Coisas perdidas no tempo e cujo mapa do local onde estavam guardas há muito fora perdido. Mas o mais difícil de entender era o porquê de lembrar tanto de coisas do passado e não conseguir se lembrar do dia anterior. Qual o motivo de recordar o distante e olvidar o próximo.

Então se deu conta de tudo. A escuridão a envolve-lo tornou-se luz. O frio não sentido, o silêncio total e as lembranças da vida há muito vivida, só podia significar uma coisa. Quando essa consciência se fez, ele entendeu o sentido da vida e se despediu dela com um sorriso. Para os presentes no velório, um primo médico disse que era apenas o relaxamento da musculatura do rosto. Mas o morto não ouviu. Tampouco viu o caixão ser fechado e o féretro seguir para o cemitério.



Escrito por Régis às 00h29
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Natal à brasileira

Hoje, 25 de dezembro, nasceu um menino. Como a maioria dos meninos no mundo, ele é pobre. Filhos, netos e bisnetos de gerações de pobres. A pobreza consegue se reproduzir de forma mais rápida que qualquer tentativa de reduzi-la.

Como os outros meninos, se teve tempo, conseguiu nascer em alguma maternidade pública, repleta de miseráveis – ou então na própria casa. Sem medicamentos, conforto ou assistência digna. Com poucos e mal humorados médicos, enfermeiros e outros atendentes. Provavelmente é um lugar com tinta velha e descascada (ou descascando, igual à tinta das camas), mal iluminado.

Provavelmente a mãe é Maria, se não no nome, na sina de sofredora. Deve ser jovem (menos de 30 anos) e talvez até mesmo pode ser uma adolescente. Essa Maria tem pouca escolaridade e mora em algum barraco numa das muitas favelas existentes por aí. Ela vai estar com alguma carne sobre os ossos, por conta da gravidez. A face aparenta bem mais que a idade registrada nos documentos, quando os tem.

O pai é algum José, analfabeto total ou analfabeto letrado. Herdeiro de séculos de analfabetismo crônico. Talvez seja até carpinteiro (ou pedreiro, catador de papel ou algo semelhante). Como o do outro menino nascido neste dia, ele faz apenas figuração. Pode até não ser o pai de verdade, de sangue. E, como aquele, talvez até esteja feliz com a chegada do pequeno. Ou não.

O nascituro bem pode ser pode ser grande e ter até um pouco de peso, mas dificilmente deve ultrapassar em muito a casa dos três quilos. A cor da pele tem uma grande probabilidade de ser parda ou preta. Os cabelos, nestes casos, uma carapinha maior ou menor.

Ao sair do único lugar onde teve a proteção e conforto - únicos em toda a sua vida, abre o pulmão e grita desvairadamente. Mas a probabilidade é de ser tão fraco e incapaz de vagir. É algo tão palpável quanto uma coluna de basalto ou granito. Mas ainda assim, só fato de ter chegado a termo já se trata de algo a comemorar, pois pode ter sido o primeiro de uma seqüência de abortos. Espontâneos ou não.

Neste momento a vida vai fazer a escolha por ele. Se viver vai reproduzir a miséria hereditária, já entranhada em seus genes. Vai ter uma vida de sofrimentos e com uma grande chance de ser curta, seja por doenças do corpo ou por doenças sociais – como a violência urbana. Se atingir a idade adulta vai descobrir ter sido ele feito para o mundo, mas não este para ele. Ele não será viável economicamente.

Mas, talvez a vida seja branda com ele. Talvez ele receba a força máxima do serviço público de saúde e contraia uma das muitas infecções, as verdadeiras donas dos hospitais. Por ser já mal formado no útero, na origem, ele tem poucas chances de enfrentar. A desnutrição dos pais passando para os filhos.

A vida pode lhe poupar tanto sacrifício. Não será necessário ele passar pelo sofrimento. Aquele outro menino nascido há muitos anos já padeceu por ele. Assim, basta para o pequeno receber o corpo, tomar posse dele com o sopro da vida e se despedir dela com um suspiro fraco.

Poucos entre os homens vão sentir a partida prematura. Foi apenas mais um pobre inviável excluído do sistema pela lei da evolução econômica natural. Mas, ninguém precisa ficar triste. O outro menino estava esperando por ele no lugar para onde foi.



Escrito por Régis às 02h00
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