Crônicas do Acre


O fim de um ciclo

 

Ao longo de sua história, o Acre sempre foi dependente ou esteve relacionado com a extração de borracha (látex). Conforme o relatado no Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre, o motivo principal para a ocupação e colonização do Acre foi a extração do látex (Hevea spp, principalmente H. brasiliensis). A mesma publicação aponta ainda que após a identificação do imenso potencial heveícola, “a colonização foi rápida”. As primeiras ocupações do Estado foram basicamente atreladas a extração da borracha e a estrutura inicial era a do “Barracão (seringalista), os agregados e o seringueiro”, ou seja, a ligada à extração do látex.

O setor gumífero viveu dois períodos considerados áureos, sendo um no começo do século XX (até 1911, segundo DEAN-1989, e 1910 segundo LIMA, s/d) e durante a Segunda Guerra Mundial, a chamada Batalha da Borracha, esforço para suprir a falta desta matéria prima devido o bloqueio naval e ocupação dos seringais malaios pelos japoneses (Martinelo 1988).

Em se tratando de resultados recentes do setor (1990-2004), medido em volume (toneladas), constata-se, no período estudado, a lenta e constante agonia do setor. A curva dos percentuais de um ano sobre o anterior demonstra ter havido dois picos de crescimento da extração gumífera, sendo um em 1999 e 2000 e outro entre 2004. Neste houve a edição da Lei Estadual n.º 1.277, de 13/01/1999, conhecida com Lei Chico Mendes, a qual trata do subsídio estadual para a produção de borracha.

Mas mesmo este incremento não foi capaz de conter a curva descendente, pois se comparados os valores obtidos com o ano inicial da pesquisa, se verifica uma retração de 80,32% (os valores de 2004 representam apenas 14,44% do volume produzido em 1990). Segundo Lima (s/d) em 1959 o Acre produziu 10.427 toneladas do produto, praticamente a mesma produção dos anos de 1992 e 1993.

Em que pese estes dados serem defasados em anos, os quais uso por terem servido quando da elaboração da Dissertação de Mestrado e de um artigo apresentado na SOBER-2008, eles ainda podem ser considerados atuais. E é isso que relato a partir de agora.

Em uma viagem recente a uma unidade extrativista (Resex), mantive contato com alguns seringueiros e pude ver que o quadro continua decadente e com destino à extinção. Segundo me foi dito por um dos produtores locais, o preço máximo obtido com cada quilo de borracha extrativa não passa de R$ 1,20 por quilo, sendo que o subsídio não está sendo pago, ao menos para eles.

Segundo ele, um vizinho levou uma carga de borracha para a cidade e, após entregar, procurou para receber o subsídio no local específico para isso. Lá foi informado que somente receberia na próxima vez que fosse vender. Ele então voltou e levou uma segunda carga, tende recebido apenas uma parte, sendo informado que na próxima (terceira) vez receberia. Como não tinha mais borracha, pediu ‘emprestada’ ao seringueiro que prestou estas informações. Voltou à cidade e nem assim recebeu. O resultado? Desistiu de cortar seringa.

O seringueiro que nos informou revelou que também não mais vai cortar seringa, possuindo na atualidade 300 kg de borracha jogada pelo chão e que R$ 1,20 não paga sequer o custo do transporte. Perguntamos então como estava se dando a sobrevivência na reserva e ele foi taxativo: bolsa do governo.

Segundo este informante, cuja cidade e Resex omitimos por motivos óbvios, em breve deve se reunir com outros produtores do local e proximidades e vão até o local onde deveriam ser pagos os valores e vão por fogo na borracha produzida para chamar a atenção e ver se conseguem receber o que lhes é de direito.

Enfim, em pleno Estado (de Graça) da Florestania, vemos aqueles que vivem da floresta serem entregues à míngua e passarem por privações. Sim, pois lhes é permitido explorar com agricultura apenas um hectare por ano, o que permite produção apenas de sobrevivência e não com fins comerciais.

Como apontamos em nossa Dissertação e no trabalho na Sober-2008, fundamentados em estatística, o setor da borracha extrativa caminha para a extinção. E os bravos e valentes seringueiros de outrora hoje são esmoleiros dos programas de distribuição de renda. Com o tempo lhes restará apenas a periferia das cidades, onde vão engrossar os bolsões e cinturões de miséria. Afinal, levando-se em conta que uma colocação produz 500 kg por ano em média, isso se traduz em uma renda anual de R$ 600 ao ano, ou R$ 50 ao mês ou R$ 1,67 ao dia. Por família média de cinco pessoas (as dos seringueiros costumam ser bem maiores) isso representa míseros R$ 0,33 ao dia por pessoa.

Infelizmente estamos assistindo o fim de um ciclo, ao menos nos moldes atuais de exploração. Aqui cabe ressaltar que não existe melhor forma de proteção da floresta que a extração de látex. Mas sem seringueiros para o trabalho isso não existe.

Ah, se você ver alguma fumaça nos próximos dias, podem ser os seringueiros queimando a produção e protestando pelo não pagamento do subsídio.



Escrito por Régis às 16h12
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Segurança nos carros

Um amigo meu comprou um Volkswagen Gol e, quando estava descansando em sua casa ouviu um barulho de rodas escorregando no chão. Foi até a garagem, na frente da casa, e viu o filho pequeno dentro do carro e brincando ao volante. Ao ver a cena, entendeu o barulho, pois o garoto mexia o volante para um lado e para o outro. Ele achou estranho, dado que os veículos sempre travavam o volante quando este era acionado sem a presença da chave de ignição.

Desconfiado, entrou em contato com a revendedora local para saber o que se passava. Nesta ninguém soube informar e o caso foi repassado para a fábrica. Desta (....mail@volkswagen.com.br) recebeu a seguinte mesagem:

 Em atenção a sua mensagem, gostaríamos de esclarecer que os veículos Volkswagen tem como dispositivo de segurança o imobilizador eletrônico. O  imobilizador eletrônico tem a função de não permitir o funcionamento do motor após sua partida, se não for utilizada a chave apropriada, ou seja, trata-se de  um sistema de gerenciamento do motor que corta a injeção do combustível, se a chave utilizada na partida não for reconhecida através da leitura do código,  por este motivo não há mais a necessidade de travamento do volante.”

Meu amigo agradeceu a informação, mas restou-lhe uma dúvida: e se o carro for deslocado de seu local de origem sem o uso da chave, coisa que uma criança pode fazer de forma acidental?

Em nossa discussão vimos que o aparelho que equipava até os antigos “fusquinhas” tinha outros usos além de impedir o roubo do veículo. Explico. Quando você retirava a chave deve lembrar que havia um estalido na altura do volante. Era a trava se acionando, pois se você tentasse mexer o volante sem a presença daquela, este travava. Muitas pessoas ao retirarem a chave ainda viravam o volante para o lado do meio-fio, de forma a dificultar o movimento.

Nesta situação de imobilização, independente da intenção de quem estivesse ao volante, não permitia o veículo rodar se não em círculos ou na direção da borda da rua. No caso de uma criança desengrenar o carro, este tendia a ir para a lateral, reduzindo possíveis impactos. É claro que não impedia roubos, pois uma pessoa com um pouco mais de força física conseguia arrebentar a trava com um tranco violento. Mas no caso de rodagem acidental, reduzia os danos.

Com a nova tecnologia isso não acontece mais, dado que o imobilizador eletrônico tem a função de não permitir o funcionamento do motor após sua partida. Ou seja, o motor fica parado, mas o carro pode descer a ladeira e arrebentar tudo pela frente, inclusive quem estiver dentro.

A questão não é ser contra a tecnologia, mas se o retorno da velha trava puder ser útil para salvar apenas uma vida, isso já terá sido de bom alvitre. Se junto a isso vier a defesa do patrimônio, melhor ainda.

Quem tem carro e criança sabe do que estou falando. Um tem uma atração irresistível sobre o outro. E juntar criança com riscos é esperar os danos.

Enquanto se discute a implantação de localizadores por satélite em veículos novos, melhor seria termos tecnologias de imobilização de rodas, com o acionamento automático dos freios quando da retirada da chave de ignição. Outro ponto seria a obrigação de airbags, pelo menos na área frontal. Outro seria o imobilizador eletrônico se o cinto de segurança não estiver afivelado.

Ainda há muito que se fazer até termos o carro perfeito em termos de segurança. É claro que isso não tira a importância daquela peça que vai antes do volante. Se esta não funcionar, for relapsa e inconseqüente, não há tecnologia que faça a vida ser preservada.



Escrito por Régis às 16h22
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Recebi este e-mail e achei interessante replicar. Não chequei os dados, mas são plausíveis.

Veja o que estão fazendo conosco. Já nos acostumamos aos roubos e furtos, e ninguém reclama mais. Há não muito tempo atrás, as impressoras eram caras e barulhentas. Com as impressoras a jatos de tinta, as impressoras matriciais domésticas foram descartadas, pois todos foram seduzidos pela qualidade, velocidade e facilidade das novas impressoras.

Aí, veio a "Grande Sacada" dos fabricantes: oferecer impressoras cada vez mais e mais baratas, e cartuchos cada vez mais e mais caros. Nos casos dos modelos mais baratos, o conjunto de cartuchos pode custar mais do que a própria impressora. Olhe só o cúmulo: pode acontecer de compensar mais trocar a impressora do que fazer a reposição de cartuchos. VEJA ESTE EXEMPLO: Uma HP DJ3845 é vendida, nas principais lojas, por aproximadamente R$170,00.. A reposição dos dois cartuchos (10 ml o preto e 8 ml o colorido), fica em torno de R$ 130,00. Daí, você vende a sua impressora semi-nova, sem os cartuchos, por uns R$ 90,00 (para vender rápido). Junta mais R$ 80,00, e compra uma nova impressora e com cartuchos originais de fábrica.

Os fabricantes fingem que nem é com eles; dizem que é caro por ser "tecnologia de ponta".. Para piorar, de uns tempos para cá passaram a DIMINUIR a quantidade de tinta (mantendo o preço).Um cartucho HP, com míseros 10 ml de tinta, custa R$ 55,99. Isso dá R$ 5,59 por mililitro. Só para comparação, a Espumante Veuve  Clicquot City Travelle custa, por mililitro, R$ 1,29. Só acrescentando: as impressoras HP 1410, HP J3680 e HP3920, que usam os cartuchos HP 21 e 22, estão vindo somente com 5 ml de tinta!

A Lexmark vende um cartucho para a linha de impressoras X, o cartucho 26, com 5,5 ml de tinta colorida, por R$75,00.Fazendo as contas: R$ 75,00 / 5.5ml = R$ 13,63 o ml. > R$ 13,63 x 1000ml = R$ 13.636,00 Veja só: R$ 13.636,00 , por um litro de tinta colorida. Com este valor, podemos comprar, aproximadamente:

- 300 gr de OURO;
- 3 TVs de Plasma de 42';
- 1 UNO Mille 2003;
- 45 impressoras que utilizam este cartucho;
- 4 notebooks;
- 8 Micros Intel com 256 MB. Ou seja, um assalto!

Está indignado? Os fabricantes alegam que o povo não reclama de nada."



Escrito por Régis às 15h50
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Enquanto Dantas passa o reveillon como Ficha-Limpa

Protógenes é suspenso por causa do seu blog

Ao Povo brasileiro, aos internautas e eleitores: o jovem talentoso, professor de econômia Pierre Lucena em seu blog, enviou-me sua contribuição com alguns comentários que demonstram a indignação do cidadão.  

http://acertodecontas.blog.br/politica/enquanto-dantas-passa-o-reveillon-como-ficha-limpa-protgenes-suspenso-por-causa-do-seu-blog/

  

Protógenes e DeSanctis sofrem perseguição implacável

Parece piada, mas não é. Enquanto Daniel Dantas passou o fim de ano relaxando em alguma praia paradisíaca, com direito a suspensão de seu processo pelo STJ, o Delegado Protógenes recebe uma suspensão por causa do seu blog.

A suspensão é de 2 dias, mas é importante para que Tarso Genro consiga demití-lo em tempo hábil. Ele não descansará se sair do Governo e não demiti-lo.

O que o Ministério da Justiça alega é que Protógenes colocou em seu blog que teria sido afastado em função de favorecimento de Daniel Dantas. A princípio não falou nenhuma mentira, ou alguém aqui acredita que se tivesse prendido apenas Celso Pitta ou Naji Nahas algo estaria acontecendo com o Delegado.

O post mencionado no processo é do dia 15 de abril, com o título A Orquestra Lufa-Lufa.

A pergunta que ainda fica no ar é: se Protógenes estava afastado naquele dia, então ele não estava no cargo de Delegado, então como poderia ser suspenso por algo que disse?

Na verdade é mais uma cortina de fumaça, no meio do lamaçal que está enfiado Daniel Dantas. Depois de afastar o Delegado da PF, o alvo passou a ser o juiz Fausto De Sanctis. A idéia é desmoralizar Protógenes e DeSanctis para se ver livre da Satiagraha.

Ou alguém ainda acha que a recente perseguição a Fausto DeSanctis também é de graça?

Segue o texto publicado no Diário oficial de hoje.

DEPARTAMENTO DE POLÍCIA FEDERAL 
BRASÍLIA-DF, TERÇA-FEIRA, 26 DE JANEIRO DE 2010 
BOLETIM DE SERVIÇO No. 017MINISTÉRIO DA JUSTIÇA

PORTARIA No. 007/2010-COGER/DPF 
Brasília/DF, 21 de janeiro de 2010 
O CORREGEDOR-GERAL DE POLÍCIA FEDERAL, no uso de suas atribuições previstas no inc. XVI, do art. 32, do Regimento Interno do DPF, aprovado por meio da Portaria no. 3961/MJ, 
de 24.11.2009, publicada no D.O.U no. 225, de 25.11.2009, c.c o inc. V, do art. 50, da Lei no. 4.878, de 03 de dezembro de 1.965, tendo em vista o disposto nos art. 10 e 11 do Decreto-Lei no. 200, de 
25.02.1967 e considerando o que restou apurado nos autos do PAD no. 046/2009-COGER/DPF, R E S O L V E : 
I – APLICAR a pena disciplinar de 02 (dois) dias de suspensão ao servidor PROTÓGENES PINHEIRO DE QUEIROZ, Delegado de Polícia Federal, primeira classe, matrícula no. 8.452, lotado na CGDI/DIREX/DPF, por restar comprovado que publicou mensagem no endereço eletrônico denominado “
http://blogdoprotogenes.com.br”, acessado em 16.04.2009, dando a entender que o seu afastamento do exercício do cargo de Delegado de Polícia Federal, determinado pela Portaria no. 247/2009-DG/DPF, de 09.04.2009, ocorreu, possivelmente, em favor de pessoa investigada em processo criminal, conduta que configura a transgressão disciplinar tipificada no inc. I, do art. 43, da Lei no. 4.878, de 03.12.1965; II – Na mensuração da pena foram observadas as circunstâncias previstas no art 45 do referido dispositivo legal.

 



Escrito por Régis às 16h32
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Pra quem gosta de acreditar nas correntes da internet, imperdíveis no e-farsa (www.e-farsa.com)

a)      http://www.e-farsas.com/h_ROUBO_ANUS.htm

b)      http://www.e-farsas.com/h_corrente_sexo.htm

c)      http://www.e-farsas.com/h_corrente_nunca_mais.htm

d)     http://www.e-farsas.com/h_dadia.htm

e)      http://www.e-farsas.com/h_corrente_pobre.htm



Escrito por Régis às 16h14
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COMO SE DESTRÓI UM FUTURO

Depois de muito tempo em silêncio não pude deixar de pensar sobre um tema que li em matéria do jornal Estado de São Paulo em relação ao volume de cheques sem fundos emitidos ao longo do ano de 2009. O original da matéria, que partes reproduzirei aqui pode ser visto em www.estadao.com.br/noticias/​economia,cheques-sem-fundos-batem-recorde-em-2009,498614,0.htm. A relação dos maiores emitentes de tais cheques é: Amapá: 10,25, Maranhão: 9,65%, Roraima: 8,92%, e o Acre - 8,91%.

Pelo que se vê, à exceção da terra de Sarney, são os três estados cuja opção não foi a por formação de riqueza ou mercado interno. No caso do Acre e Amapá a opção foi pelo viés ecológico. A de Roraima, foi na marra com a ‘Raposa Serra do Sol’.

No caso específico do Acre, é preciso trazer à baila que, recentemente, em matérias jornalísticas, foi reportado que o Estado tem 3º pior desempenho na evolução do ICMS do país e que o crescimento na arrecadação do tributo no Acre entre os anos de 2007 e 2008 ficou em apenas 2,32%. Inicialmente, nos primeiros anos da “florestania” houve um salto da ordem de 110%, mas no ano de 2009 ficou entre os piores resultados.

Sobre este tema em especial, e do qual não se fala nas discussões atuais, é o fato de que no primeiro mandato “florestânico” procedeu-se à maior tungada em todas as esferas, desde empresários até o consumidor final. À época, o ICMS sobre combustíveis, telefonia, água e energia elétrica foram guindados aos atuais 25% (32% para a energia por conta da fórmula de cálculo).

Só a título de curiosidade, no Estado do Rio Grande do Sul, um ‘pouquinho’ mais rico financeiramente que o Acre, a atual governadora não conseguiu aumentar o ICMS dos combustíveis para 17%, pois a própria base aliada votou contra. Logo, se verifica que à custa do suor e do sangue se escorcha o contribuinte, dando saltos iniciais na arrecadação, mas o isso compromete a evolução econômica ao longo dos anos, cujos resultados da falta de economia própria já se fazem sentir, pois a terra de Galvez não gera riqueza, mas gasta o produzido pelos outros via FPE/M.

Da mesma forma, em um artigo publicado em jornal local (ORB, set/2008) já discutiamos o tema, dado que uma opção, seja ela em qualquer área ou setor, sempre implica em ganhos e perdas. Afinal não existe algo onde todos ganham, pois para um poder ganhar o outro deixa de ganhar (ou até mesmo perde). Somente na teoria primária do capitalismo se via a possibilidade do ganho se igualmente distribuído para todos.

O Estado “Florestânico” do Acre  fez uma opção pela exploração florestal, onde se apregoava que, parafraseando o belo hino do Santo Daime, da floresta eu tenho tudo, tudo ela me dá. Mas o desenvolvimento não veio e os números comprovam isso, como repisamos agora.

Em termos de indicadores sociais, o IDH  acreano (2000, segundo Anuário 2008) está em 0,69 (entre os piores do país). A Educação patina na falta de vagas para os alunos das escolas públicas e não se consegue reduzir o analfabetismo, como se viu nos últimos dias. Os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA (2005), revelam ter crescido a concentração de renda (piorado o coeficiente de Gini) no Estado do Acre no período entre 1995 e 2003, passando da faixa de 0,585 para 0,620 (entre os maiores do país).  

O mesmo IPEA revela que entre 2001 e 2004 (última análise) a pobreza no Acre cresceu 2,1% pontos percentuais (crescimento de 19,4%), sendo este crescimento sido detectado curiosamente (ou não) também no Amapá (20,5 p.p) e Roraima (11,7 p.p). No restante do país houve redução. Não vamos entrar na discussão sobre a renda, por não ser preciso com estes dados anteriores. Talvez seja por estes números que, quem sabe, o governo do Acre se orgulhe tanto de atender cerca de 60 mil famílias com os programas de distribuição de renda.

Todos os dados, em que pesem possuírem anos de atraso, mostram que o Estado patina e até anda para trás, principalmente quando de trata indicadores sociais.

Os argumentos aqui apresentados não são uma apologia aos desmates e destruição da hiléia, mas representam um (mais um) alerta de que a forma de desenvolvimento econômico traçada pelo Estado nos últimos 12 anos está destruindo o futuro do Acre.

Não temos economia própria, não temos eventos ou belezas (históricas ou naturais) que justifiquem um investimento maciço em turismo, não temos minérios, não temos agricultura e nossa pecuária anda na contra-mão do desenvolvimento (gigolôs de touros). Como a “florestania” nos levou para a concentração de renda e aumento da pobreza, pouco se nos resta em termos de futuro. Hoje pode se dizer que o Acre está com um atraso de quase 20 anos em termos econômicos e também sociais.

Só nos resta então comemorar o fato estarmos entre os primeiros em pobreza, cheques sem fundo e concentração de renda.



Escrito por Régis às 16h57
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O JUIZ E O PORTEIRO.

Transcrevo aqui uma sentença onde um Juiz exige ser chamado de doutor e considera ofensivo o fato de ser tratado por “ você”. Este fato relatado a seguir ocorreu em 2005, estando ainda com recurso pendente no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (http://srv85.tjrj.jus.br/consultaProcessoWebV2/consultaProc.do?v=2&FLAGNOME=&back=1&tipoConsulta=publica&numProcesso=2005.002.003424-4). É uma afronta às boas relações entre os diferentes, mas também uma aula de lógica e sabedoria do Juiz que sentenciou. E o interessante é que o “Doutor” recorreu para tentar obrigar ao porteiro ao tratamento.

Só a título de contribuição: Sou engenheiro agrônomo (Bacharel), tenho mestrado e finalizo um curso de especialização (tudo em Universidade Federal). Não admito ser chamado de Doutor. Tenho nome. Os títulos servem apenas para provar até onde posso ser útil, não servindo para me tornar melhor ou pior que ninguém, mas sim aumentando minha responsabilidade para com a sociedade que me rodeia.

Mas ainda bem que ainda há juízes em Berlim: “Il y a des juges à Berlin”. Pelo menos em alguns lugares.

 

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO COMARCA DE NITERÓI – NONA VARA CÍVEL – Processo n° 2005.002.003424-4

S E N T E N Ç A

Cuidam-se os autos de ação de obrigação de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOMÍNIO DO EDIFÍCIO LUÍZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do prédio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de ’senhor’.

Disse o requerente que sofreu danos, e que esperava a procedência do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de ‘Doutor’, senhor’ ‘Doutora’, ’senhora’, sob pena de multa diária a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condenação dos réus em dano moral não inferior a 100 salários mínimos. (…)

DECIDO. ‘O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter.’ (Noberto Bobbio, in ‘A Era dos Direitos’, Editora Campus, pg. 15).

Trata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, não se justificando tamanha publicidade que tomou este processo. Agiu o requerente como jurisdicionado, na crença de seu direito. Plausível sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solução do conflito.

Não deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta ação pode ter conotação de incompreensível futilidade. O cerne do inconformismo é de cunho eminentemente subjetivo, e ninguém, a não ser o próprio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente.

Está claro que não quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudatório, posto que é homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que não lhe assiste razão jurídica na pretensão deduzida.

‘Doutor’ não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas às pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universitário. Constitui-se mera tradição referir-se a outras pessoas de ‘doutor’, sem o ser, e fora do meio acadêmico.

Daí a expressão doutor honoris causa – para a honra -, que se trata de título conferido por uma universidade à guisa de homenagem a determinada pessoa, sem submetê-la a exame.

Por outro lado, vale lembrar que ‘professor’ e ‘mestre’ são títulos exclusivos dos que se dedicam ao magistério, após concluído o curso de mestrado. Embora a expressão ’senhor’ confira a desejada formalidade às comunicações – não é pronome -, e possa até o autor aspirar distanciamento em relação a qualquer pessoa, afastando intimidades, não existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio a ele assim se referir.

O empregado que se refere ao autor por ‘você’, pode estar sendo cortês, posto que ‘você’ não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação. Fala-se segundo sua classe social.

O brasileiro tem tendência na variedade coloquial relaxada, em especial a classe ’semi-culta’, que sequer se importa com isso.

Na verdade ‘você’ é variante – contração da alocução – do tratamento respeitoso ‘Vossa Mercê’. A professora de linguística Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos literários que apresentam altas freqüências do pronome ‘você’, devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse país, é usual as pessoas serem chamadas de ’seu’ ou ‘dona’, e isso é tratamento formal.

Em recente pesquisa universitária, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor/ a senhora e você quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente. Na edição promovida por Jorge Amado ‘Crônica de Viver Baiano Seiscentista’, nos poemas de Gregório de Matos, destacou o escritor que Miércio Táti anotara que ‘você’ é tratamento cerimonioso. (Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 1999).

Urge ressaltar que tratamento cerimonioso é reservado a círculos fechados da diplomacia, clero, governo, judiciário e meio acadêmico, como já se disse. A própria Presidência da República fez publicar Manual de Redação instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de ‘você’ e ’senhor’ traduz-se numa questão sociolingüística ( é com você Weden), de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais.

Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corpore daquela própria comunidade.

Isto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o incômodo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honorários de 10% sobre o valor da causa. P.R.I. Niterói, 2 de maio de 2005.

ALEXANDRE EDUARDO SCISINIO-Juiz de Direito



Escrito por Régis às 15h21
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Vista

 

Nem lembrava mais quando fora a primeira vez que a vira. Sabia não fazer muito tempo, coisa de algumas semanas. É bastante provável que das primeiras vezes tudo tenha passado despercebido, dada a falta de motivos para uma olhada mais detalhada. Mas com o passar do tempo o quadro foi se impondo no alto do horizonte escuro das noites urbanas. Mas agora isso já não importava.

Às vezes pensava se tudo não passava de uma distorção de imagens. Ou, quem sabe, uma assombração ou projeção de imagens, dessas que se faz hoje em dias nos prédios em todas as cidades grandes. Mas, fosse o que fosse, ele se apaixonou perdidamente por aquele quadro sempre repintado, noite após noite nas circunvizinhanças do seu apartamento.

Mas voltando à imagem, não era algo definido, onde os detalhes se apresentassem claramente. Primeiro havia a distância, distorcendo a visão. Não que fosse muito longe, mas era uma distância considerável para o olho humano, responsável pela pouca definição da imagem. Em seguida, havia a questão da pouca iluminação. À noite, mesmo com as luzes da cidade, não havia lumens suficientes para destacar detalhes. As sombras se projetavam a partir do prédio e a luz proveniente da parte interna fazia ainda mais difícil o contraste. Mas pelo que se via, para ele, já era o suficiente para sonhar e acelerar o coração.

O quadro era o seguinte: todas as noites, um vulto feminino surgia em uma sacada no décimo segundo andar de um prédio. Primeiro agitava-se, acendia um cigarro e balançava os braços, como se discutisse com alguém. Andava de um lado para o outro, de forma agitada. Depois de um espaço de alguns minutos, parava. Ou melhor, estacava.

Na sequência, projetava-se sobre a grade, balançando-se como se fosse se jogar. Depois, debruçava-se e ficava a olhar para o vazio. Pouco depois, começava a balançar a cabeça, fazendo balançar as madeixas longas. Primeiro de um lado para outro e depois para cima e para baixo. E aí começava a esmurrar a grade, como a se vingar de quem lhe fizera algum mal. Ao final, baixava a cabeça e assim ficava por um tempo, para depois entrar e desaparecer na parte interna do apartamento. E ele a tudo assistia, impotente diante do sofrimento dela.

Se pudesse, galgaria as paredes lisas e postar-se-ia ao lado dela para protegê-la. Não podia ver o sofrimento dela sem se condoer. Não sabia quem era o ou os responsáveis por tamanho sofrimento, mas por eles já nutria um ódio mortal. Se dele dependesse, já estariam todos em lugares bastante distantes daquela delicada figura que lhe adornava as noites vazias e solitárias.

Ele ficava a se perguntar qual seria o problema a causar tantas alterações. O que justificaria um sofrimento diário, transformado em ritual de sofrimento? Quem seria o responsável por tudo isso e cuja ascendência não lhe permitiria fugir?

Nem mesmo se perguntava mais quem era a figura da noite. Já não era mais necessário. Sabia apenas ser uma mulher e, ao que tudo indicava com base nos movimentos visíveis, era jovem e no viço da idade. Mas o que levava uma pessoa a pensar em suicídio, desesperar-se e esmurrar algo com tamanha agressividade? Era um misto de raiva, impotência e desespero. Como alguém podia ser tão cruel com uma pessoa tão bela? E ele ficava a ruminar a dor de sua amada.

Já no apartamento, agora visto por dentro, fora da vista dos outros, o jovem ‘metaleiro’ preparava o seu baseado após o silêncio imperar na casa. Quando tudo estava pronto, saía para o terraço e acendia, mantendo os braços em movimento para que o ‘pitilho’ não apagasse. Tão logo consumia, vinha a agitação, que o obrigava a se mover no pequeno espaço. Depois, quando começava o efeito da droga, segurava-se na grade e nela se apoiava. Quando chegava a letargia, ligava seu Ipod e começava a ‘benguear’ (ato de balançar a cabeça para acompanhar a música). Quando a música esquentava, fazia da grade sua bateria e, como se os braços fossem baquetas, acompanhava a música. Após, o clímax da música e da droga o deixavam em transe e ele ficava um tempo parado. Na sequência, aprumava-se e ia para dentro dormir e sonhar com a dose da noite do dia seguinte.



Escrito por Régis às 15h08
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Blue eyes female

Ele olhou o céu plúmbeo, encoberto por pesadas e baixas nuvens, e uma dor apertou-lhe o coração. Não foi uma dor forte como de um enfarto. Não, foi mais como se lhe cravassem lenta e dolorosamente uma fina agulha no músculo cardíaco e, à medida que esta fosse penetrando mais no âmago do coração, se tornasse mais grossa. Era uma dor de fora para dentro, ainda que na parte mais profunda fosse fina. Mas na parte externa era como se algo estivesse rasgando as fibras de seu miocárdio.

Mas a dor não era física. Era como se o problema se originasse em sua alma. Coisa do espírito e não do corpo, embora a sensação fosse como se este estivesse sendo atingido fisicamente. O corpo expressando ao seu jeito as mensagens da alma (continua).

No princípio não entendeu o motivo daquela angústia profunda e dolorida. Apenas sentiu. Mas aos poucos a capacidade de associação foi se impondo. O cérebro lentamente dava-se conta daquilo que o espírito já manifestava.

É claro que desde o primeiro sintoma ele já sabia o motivo. Apenas não queria admitir para si a razão de tudo, pois sabia que o sofrimento somente tenderia a crescer com a razão se impondo e as idéias clareando. A dor de tê-la visto morrer em seus braços doía demasiadamente até hoje.

Olhou novamente para o céu e rememorou o dia do primeiro encontro, considerando ser isso melhor que lembrar o fim trágico. Era uma noite fria e molhada. O resultado de um dia cinzento e chuvoso, com a noite sendo apenas o avanço das condições plúmbeas na direção do preto soturno. À noite o clima era pesado, úmido e com uma leve brisa gelada.

Nessa condição mais propícia a um filme de terror, onde alguns raios fantasmagóricos ainda riscavam o céu de tempos em tempos, ele a viu enquanto caminhava pela rua deserta. No primeiro momento, não prestou muita atenção ao pequeno vulto encolhido embaixo de uma pequena marquise, buscando um refúgio contras gotas de chuva que ainda caíam.

Ela estava molhada. Melhor, encharcada. Parecia que cada uma das menores partes de seu corpo abrigava uma gota de água. E estas, ao escorrer obedecendo à lei da gravidade, depositavam-se aos seus pés em uma poça. Era um quadro definitivamente feio daquela criatura tentando se abrigar do frio e da chuva.

Mas naquele quadro dantesco uma coisa lhe chamou a atenção: os grandes olhos azuis. Era um misto de medo e arrogância. Como a lhe dizer ‘me ajude, mas se não puder, pouco me importará’. Mas eram lindos aqueles olhos azuis, os quais embelezavam o rosto delicado. E ele se apaixonou por aquela criatura.

Deste encontro pouco mais se lembrava alem do fato de ter se aproximado delicadamente para não assustá-la mais. A comunicação foi instantânea. Havia uma química entre eles, como ele sentira desde a primeira troca de olhares. E para ela seguir com ele não foi difícil. Ele sabia ser ela uma personagem da rua, sem quem cuidasse dela, mas isso não importava. O que sentia era maior.

É claro que nem tudo fora um mar de rosas nos poucos anos de convivência. Ela descobriu que ele tinha defeitos e ele os dela. Quando irritado, às vezes, batia nela. Ela revidava. Não era fêmea de apanhar e ficar por isso mesmo. Quando as brigas eram fortes a este ponto ela fugia e ficava dois ou três dias fora.

Neste período o outro dizia para todos jamais aceitar um retorno, tendo aquela sido a última vez em que foram vistos juntos. Mas quando ela retornava, meio desconfiada, como se entrasse em casa pela primeira vez, ele esquecia tudo e a pegava instantaneamente no colo, cobrindo-a de carinhos e mimos, o que era imediatamente revidado em igual ternura. O amor era maior.

Das manias dela havia uma a irritá-lo profundamente: a atenção demasiada com as unhas. Por ela estar sempre as mantendo bem cuidadas, fazia com que ele odiasse cada gesto neste sentido. Outro ponto era a mania de limpeza e a forma como ela se banhava depravadamente na sua frente. Era lasciva demais ao tocar o próprio corpo. Havia também a forma escandalosa e barulhenta de fazer amor, algo um tanto exasperante. Mas tudo se olvidava quando os dois ficavam juntos e trocavam carícias.

Mas aquela criatura nefasta tinha de aparecer e se intrometer na relação estável deles. Aquele monstro asqueroso e envenenado surgiu como do nada e destruiu um amor verdadeiro. Todos os dias ele se punia por não ter tomado as devidas precauções e por não estar em casa no dia trágico. Se ele estivesse, ela poderia ainda estar viva. Se.

Mas ele não estava e a sua querida gata siamesa comera um rato envenenado, sendo encontrada agonizante nas proximidades dos restos do assassino. Tudo que pode fazer foi vê-la ir morrendo aos poucos, com a vida se esvaindo lentamente daqueles lindos olhos azuis, a sua paixão eterna.



Escrito por Régis às 18h10
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A morte da Velhinha do Seringal

Há algum tempo, quase por brincadeira, ‘localizei’ um personagem similar (e espelhado) na Velhinha de Taubaté. O personagem era a Dona Credentia, a Velhinha do Seringal. Segundo as pesquisas genealogenéticas efetuadas pelo Centro Acreano de Documentação de Pessoas e pela unidade de Mapeamento Genético da População Acreana, a idosa senhora era a última parenta viva da homônima paulista. A dileta senhora, que teve apenas umas duas ou três histórias por mim retratadas, tinha entre seus ídolos o jornalista acreano Washington Aquino e um papagaio chamado CAnibal.

Para D. Credentia um dos programa prediletos era ouvir Aquino em seu programa matutino na rádio Difusora. Ela acreditava quando o jornalista exaltava as vantagens e mudanças que estavam ocorrendo na ‘Florestania’. E de sua chácara na Vila Acre, de onde não saía há mais de vinte anos, ela imaginava um Acre seguro e próspero.

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A primeira crise de hipertensão da Velhinha do Seringal veio com a demissão de Aquino da rádio. Para ela, naquele nefasto dia que a notícia percorreu os rincões e grotões acreanos, era como se algo fabricado pelo mais fino cristal da Boêmia tivesse se partido. Como podia alguém não gostar do que era dito pelo rapaz?

Nesse dia a pressão sanguínea subiu. A Velhinha sentiu uma forte dor de cabeça, náuseas e uma vertigem. Atendida por uma unidade do SAMU, acionada pelo CAnibal (este aprendeu a fazer ligações para poder se comunicar com os outros papagaios da região). Os paramédicos atenderam e diagnosticaram um acidente vascular cerebral e encaminharam a idosa para o pronto-socorro do Hospital de Base, onde ela foi medicada e liberada poucas horas depois para se tratar em casa. Houve apenas um grande conselho: evitar grandes emoções.

Desde este dia D. Credentia passou a assistir televisão, onde poderia saber das notícias da ‘florestania’ e, finalmente, ver o seu ídolo apresentado aquele que, na opinião dela, era o melhor jornal televiso do mundo – até por ela não ver qualquer outro. A cada risada ‘espontânea’ de Aquino ela ia ao Nirvana. Nada passava mais credibilidade. A ‘independência’ com que o jornal era apresentado era algo valorizada por ela.

Mas a pressão dela passou a se alterar nos últimos tempos. De repente a ‘florestania’ não era mais tão bela. Alguma coisa estava errada neste imenso seringal chamado Acre. Os problemas estavam aparecendo e ela ficando cada vez mais atônita. Afinal, a vida não ia melhorar? E a pressão subindo como as água do rio Acre e a pluviometria do mês de abril.

Nos últimos tempos ela já era mais a mesma. Por conta das alterações no humor dela nem mesmo o Serviço Secreto da Florestania, o famigerado SSF, se interessava mais pelas palavras dela, já um tanto desconexas por conta do AVC. O SSF chegou até desligar o grampo da casa dela. Nem mesmo os pesquisadores do o IBGE -Instituto Bocacrense de Garimpagem Exclusiva, a serviço do governo do Estado, estavam mais interessados na opinião dela.

Quando foi neste último fim de semana a situação foi ao extremo. A velhinha ficou sabendo da demissão de Aquino da TV5. O verdadeiro bastião da credibilidade da floresta havia caído. Agora as manhãs não seriam mais as mesmas. Calava-se a risada mais apreciada e não se ouviriam os comentários concisos e coerentes. Quem defenderia a ‘Florestania’ de forma tão correta e verdadeira?

Uma dor aguda e violenta acometeu a velha senhora. Diretamente na cabeça. A escuridão se formou ao seu redor, seguida de náusea violenta e uma dor excruciante lhe irrompeu do peito. Era como se lhe fendessem o externo e expusessem o conteúdo peitoral. A dor foi tamanha que ela desfaleceu para desespero do CAnibal. Ele ainda ligou para o SAMU, mas nada mais podia ser feito. A vida havia se esvaído com a última notícia. Sem Washington Aquino na imprensa não havia mais motivo de vida.

Ao saberem da notícia do fim da última pessoa capaz de acreditar na propaganda oficial o SSF e o IBGE (Instituto Bocacrense de Garimpagem Exclusiva) se preocuparam com os destinos da Florestania e já estão à caça de alguém, pelo menos uma pesssoa, que acredite na propaganda oficial e com isso o governo possa se manter. Há controvérsias se isso é possível, mas somente o tempo dirá.



Escrito por Régis às 16h10
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A voz

Desde a noite de quinta-feira (2-abr-2009), o silêncio vai imperar nos aeroportos brasileiros. A voz que alertava passageiros para embarque e desembarque não mais será ouvida. O serviço foi extinto pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária-Infraero. A alegação? Poluição sonora.

Posso até concordar com eles com relação a alguns aeroportos do país por onde andei. Em alguns sequer se entendia o som dos alto falantes. Em outros, parecia uma gralha desafinada grasnando feito um corvo histérico. Estes podem e devem ser emudecidos. Pura poluição. Porém, em outros, deveria ser mantido.

A deusa dos aeroportos atende pelo nome de Íris Lettieri. Dona de voz sensual, a locutora, cantora e ex-atriz carioca despertava o imaginário de alguns passageiros que subiam e desciam dos aviões. Iris é considerada por correspondentes internacionais “a mais bela voz do mundo” (com informações da Infraero: http://www.infraero.gov.br/impr_noti_prev.php?ni=5071&menuid=impr).

O primeiro aeroporto a utilizar sua locução foi o de Manaus, em 1976. Mas com a inauguração do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão, em 1977, que ela ficou mundialmente conhecida como a voz oficial desse aeroporto.

Contudo, nos últimos tempos, os anúncios estavam restritos aos Aeroportos de Guarulhos (São Paulo), Congonhas (São Paulo), Eduardo Gomes (Manaus), Antonio Carlos  Jobim/Galeão (Rio de Janeiro) e Santos Dumont (Rio de Janeiro).

Para mim a lembrança do Galeão/Tom Jobim ficará marcada para sempre na memória: "Atenção senhores passageiros com destino a Miami: embarque imediato no portão de número ...". Uma frase normal e corriqueira, mas que qualquer um gostaria de ouvir durante muito tempo se pronunciada na voz sexy Íris.

Eu já havia ouvido e visto essa senhora em programas de televisão. Era bonito. Mas nada se comparou ao delicioso choque quando sai para o saguão do Galeão/Tom Jobim e recebi aquela carícia em meus ouvidos. Parei. Melhor: Estaquei. Se você nunca ouviu, não saberá o que digo. Se já ouviu, saberá entender o meu estupor.

Imobilizado entre um passo e outro eu procurava no éter. Era como se a pessoa estivesse ao meu lado, falando lânguida e sensualmente só para mim. Convidando-me para ir para Miami – nem sei mais se era mesmo para lá – com ela. E eu teria ido de bom grado, se fosse verdade. Não sei quanto tempo fiquei parado naquela posição ridícula, com um pé à frente e o outro atrás. Acho que estava em pose semelhante à clássica foto do ex-presidente Jânio Quadros logo após a renúncia, com cada pé apontando para um lado diferente. Sem rumo.

Ouvir a ‘Voz’ de Íris Lettieri foi uma das sensações mais agradáveis para mim. Era como flutuar no espaço, sustentado pelas deliciosas ondas sonoras emitidas por ela. Mãos imaginárias, delicadas e sensuais, me acariciavam.

Tenho quase certeza da permanência desta lembrança em minha mente por todos os meus dias ainda restantes. Já se passou 15 anos da experiência e ela continua vívida. Talvez, em alguns anos, quando não mais lembrarem dela, eu estarei sentado com os meus netos e direi orgulhosamente a eles ter ouvido, um dia no passado, a mais bela voz do mundo.

Em termos de excelentes lembranças auditivas só posso dizer que ouvi-la no Galeão/Tom Jobim só pode ser comparado com a primeira vez que ouvi um Uirapuru na floresta Amazônica. Foi lindo. Mas este cantava sozinho, enquanto ela falava por um alto-falante em meio à cacofonia de vozes humanas e o ensurdecedor ruído de turbinas. Assim, para mim, ela ocupa o primeiro lugar.

Penso ser eu um privilegiado. Pude ouvir as duas mais belas vozes do mundo: um Uirapuru e Íris Lettieri. Acredito não haver neste mundo algo capaz de se comparar a estas duas emanações vocais. Mas pássaros existem vários. Íris só uma.

Só ficou uma pontinha de tristeza por não ter ouvido ao vivo e pessoalmente. Só para mim. Mas isso é avareza. Íris deveria ser compartilhada com todos. E assim o foi.

E então eu penso que se Rick Blaine (Humphrey Bogart) teve a sua Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e eles sempre terão Paris, eu e Iris Lettieri sempre teremos o Galeão/Tom Jobim. Ainda que ela não saiba disso.



Escrito por Régis às 14h30
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O Espírito de Natal

Por problemas, vou republicar uma crônica do Natal:

Era um dia como outro qualquer, com a diferença apenas que se haviam passado cinco dias do Natal. O tempo se apresentava chuvoso, como quase sempre neste período do ano na Amazônia brasileira.

Neste dia em especial saíra eu de casa com destino a Universidade Federal do Acre – UFAC para resolver alguns pequenos detalhes, sendo que posteriormente me deslocaria até o centro da cidade para outros assuntos. Como normalmente faço, levei apenas o dinheiro necessário para pagar o ônibus urbano em direção ao centro a partir da universidade e para o retorno para casa. No caso em questão, levara apenas cinco reais, pois a passagem custa R$ 1,90. Ou seja, isso me deixava uma margem de R$ 1,20, mas como não pretendia gastar em nada, bastava.

Em certo ponto, por volta do meio do trajeto até o centro da cidade, vi quando adentrou ao ônibus um rapaz de aparência jovem (algo em torno de 30 anos), tez morena, magro e com um detalhe que chamava mais a atenção: os olhos eram completamente brancos, revelando uma cegueira total.

Tão logo o coletivo saiu da parada onde o deficiente visual subira, este se aproximou da roleta e procurou falar com os passageiros, sem, contudo, passar para a outra parte do ônibus. Disse rapaz que estava pedindo ajuda para realizar tratamento em outro Estado por conta do problema de saúde que possuía.

Contou ser morador da área rural, onde teria acontecido o acidente fatídico. Relatou estar em uma caçada e quando foi fazer um disparo, acertou a si mesmo, sendo que dos quase quarenta caroços de chumbo a lhe atingirem a face, a metade já havia sido extraída. Dos restantes, alguns estavam perigosamente alojados no cérebro, razão de sua ida a outro Estado.

O pedinte, que revelou já ter ido a canais de televisão pedindo ajuda, revelou ter sofrido privações na outra vez em que teve de viajar para fora do Acre em busca de tratamento. Disse ter passado dois meses em outro estado com apenas o correspondente a um salário mínimo, sofrendo privações e muita fome, ele e a genitora. Relatou ter obtido as passagens desta vez, mas ainda não possuía os recursos para a manutenção dele e do acompanhante. Em face deste relato, buscava ajuda dos ouvintes.

Enquanto ele falava, meus olhos fitavam aqueles globos oculares totalmente brancos. Via-lhe a face contrita de quem é obrigado a esmolar para tentar tratamento de saúde. Via uma pessoa se humilhando e sentindo os efeitos disso no próprio corpo magro. Nisso eu pensava que se tivesse algum dinheiro de sobra, ajudar-lhe-ia. Mas, tornei a matutar, em uma época especial, onde todos celebram o Natal e atribuindo a isso uma mudança de caráter por conta de tudo a existir sobre o tema, pensei que não lhe faltariam mãos caridosas a fazerem doações.

Enquanto ele falava, pensei no quanto poderia ajudá-lo, pois quase não levava dinheiro, mas ao mesmo tempo esperava ver os auxílios se aproximando. Neste pequeno espaço de tempo, sacudi os meus bolsos e tirei uma moeda de um real e me aproximei do rapaz. Apesar de ser apenas simbólica a ajuda, estava lhe dando quase um terço de tudo que possuía no momento. Mas, pensei eu, o Espírito de Natal haveria de se manifestar e as pessoas iriam ajudar o rapaz, se não resolvendo o problema dele, ao menos minorando seus males.

Mas o rapaz permaneceu abraçado à coluna do ônibus, ao lado da cobradora, com seu olhar cego e vazio, enquanto o coletivo chegava na parada central, onde eu desci. E ninguém mais lhe deu uma mísera moeda. A expressão de tristeza naqueles olhos mortos me mostrou a realidade do espírito de natal (assim mesmo, em minúsculas).

Nessa época, final de dezembro, nos lembramos de comer, brindar, felicitar e presentear àqueles que conhecemos, mas não somos capazes de olhar o nosso irmão que nos estende a mão e pede apenas um pouco. A isso me vem à recordação dos ensinamentos do Menino: Quando a um destes meus pequeninos fizestes, a mim o fizestes (Bíblia: Mateus 25: 40). E constato não termos entendido a doutrina cristã.



Escrito por Régis às 18h20
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Pela vida

Acordo cansado depois de mais uma noite mal dormida. Mas não me deixo abater. É muito pouco que me é requerido para ajudar alguém a quem devo tanto e amo em proporção ainda infinitamente maior. Será mais um dia em luta pela vida. A dela.

Mesmo sabendo da possibilidade de ser este igual a tantos outros dias, onde as notícias simplesmente não existem, me mantenho firme. Não que seja fácil, pois não é nem um pouco, mas a luta é gratificante.

Cada dia é praticamente o mesmo: ir ao hospital, ajudar na higiene pessoal, contar-lhe histórias que não sei se está ouvindo ou entendendo – mas a mim basta a intenção e a vontade de, quem sabe, lhe fazer algo bom. As massagens nas articulações, músculos e ligamentos, bem como as flexões dos membros inferiores e inferiores são uma rotina para se reduzir os efeitos da inanição e ajudam a melhorar o ambiente.

É claro que ao vê-la em tal situação fico a me perguntar como seria se isso não tivesse acontecido e ela estivesse comigo na plenitude de suas forças. Mas não foi possível e temos de lutar contra os fatos. Estes dão conta dela estar totalmente paralisada e sequer com atividade cerebral.

Mas não é por conta dos problemas, meus e dela, que vou desistir. Enquanto houver vida naquele corpo, estarei do lado dele e fazendo a minha parte. Ou seja, vou fazer tudo ao meu alcance.

A degeneração é algo que se processa a olhos vistos em um corpo imóvel durante anos. Mesmo com as atividades físicas forçadas, há uma redução na massa muscular e um encolhimento de nervos e tendões. Os olhos vão se tornando encovados com o passar dos dias. O cabelo perde o viço e cai desgrenhadamente mesmo sem movimentos de cabeça. A pele se deposita sobre os ossos descarnados. O rosto murcha.

Mas quem disse que seríamos belos para sempre? Quem disse ser o amor o resultado de uma equação matemática conjugadora dos fatores beleza e viço? Se assim pensasse trocaria a esposa a cada quinze anos, quando os sinais do tempo se fizessem mais visíveis. Mas o amor tem de amadurecer com os anos e nós sabermos que a decrepitude será um fato. Se não for assim, a pedofilia será aceitável e não uma aberração ser combatida.

Me recuso a vê-la somente como um fardo, pois fardos somos todos nós. Cada um de nós é, de uma forma ou de outra, um peso para outros. Se não vejo beleza ou recebo de volta o retorno pelos meus préstimos, tenho em mente tudo que nos envolveu no passado. A cada gesto meu é como se restituísse ou devolvesse parte de tudo já tivemos. E por isso tudo, ainda estou na luta.

Médicos já me disseram não haver esperança e ser apenas uma questão de tempo. Ok. Vou esperar o tempo. Não serei eu o responsável pela sua morte. Quando chegar o tempo, a natureza seguirá o seu curso. Até lá, vou estar aqui, ao lado dela. O trabalho não diminui o meu amor e minha devoção.

Não vou desistir. Em algum lugar e em algum momento alguém pode ter a resposta para o mal que nos aflige. E, quando chegar este momento, quero estar aqui, ao lado dela, pronto para fazer o necessário para por fim a esta luta.

Não foi culpa de ninguém o ocorrido. Mesmo se culpa houvesse, isso não retiraria a responsabilidade daquele que ficou de lutar até o fim pelo restabelecimento do outro. Não se deixa um companheiro caído na estrada. Se ele não consegue se erguer, nós o levantamos e o apoiamos até o restabelecimento. Somos um o apoio do outro. Se na hora da necessidade somos egoístas e falhamos com os nossos, como nos autodenominaremos humanos?

Se tudo isso falhar e a perdermos a luta, ficará a sensação do dever cumprido. Não terei perdido meu tempo, mas mantido o respeito por mim mesmo.

 

(PS: Não sei se seria tão altruísta assim. Apenas tentei me colocar no lugar dele.)

 



Escrito por Régis às 16h42
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Liberdade

Estou cansado. Já não sei quanto tempo se passou da primeira vez que entrei neste local. È provável que o tempo possa ser contado em anos. Vários deles. Mais de dez, tenho certeza disso. O cansaço se impõe no corpo e no espírito. Dor física e mental. Dificuldade de entendimento.

Olho para os equipamentos de monitoração da vida: pressão arterial, freqüência cardíaca e respiratória, temperatura, atividade cerebral. Tudo igual. Afinal, controlado pelas máquinas de manutenção da vida não se movem além do estipulado pelo programador.

O poder da vida é compartilhado entre o fabricante da máquina e o médico que programa o equipamento de acordo com as necessidades da vítima. A morte não pode fazer a sua parte no devido tempo por conta da ação daqueles dois.

O objetivo é manter a vida. A vida de quem? A minha já não existe faz algum tempo. Sou escravo de um vegetal. Mesmo sem vontade própria este vegetal me domina e determina como devem ser os meus dias. A hora de acordar, de dormir. Até mesmo o pensamento possui um censor, capaz se cercear idéias lúgubres que insistem em pairar entre o consciente e o inconsciente.

São dias e noites insones. Existem momentos onde meus pés me levam a lugares onde não desejo estar. Talvez o ser sem vontade seja eu. Talvez a incapacidade seja contagiosa e hoje também seja eu um vegetal. Já não sei de mais nada. Não decido.

Olho para a figura a se deteriorar como se não a conhecesse. Já não é nem sobra da pessoa amada. Tratasse apenas de um pedaço de carne em decomposição. Degeneração lenta, gradual e constante. Encarquilhamento de pele. Atrofiamento de músculos e tendões. Órbitas encovadas, residência de olhos sem vida. E nem mesmo toda a fisioterapia do mundo pode mudar o inexorável.

O fim já aconteceu há muito tempo. O fim foi rápido e, penso eu, indolor. A degradação é que tem sido lenta. A morte em vida é mais dolorosa. Acompanhar a degradação sem vantagem é algo pelo qual ninguém deveria passar. As pessoas deveriam ser poupadas de enterrarem aqueles que o amam.

A dor de quem fica é enorme quando o fato causador acontece, mas, ao contrário daqueles que perdem seus entes de forma definitiva, enterrando-os, ficar sentindo-a a cada dia é masoquismo.

Quem enterra os seus perdidos, deles guarda a lembrança. É uma saudade doida, mas uma lembrança vívida. Os que são forçados a acompanhar a degradação em vida têm de sofrer o impacto principal e os pequenos impactos diários. Dor por atacado seguida pela dor no varejo. Sofrimento alopático inicial e homeopático no dia-a-dia.

Olho para aquele pedaço de carne disforme, com vida artificial e penso em como seria se o sofrimento chegasse ao fim. O sofrimento de todos. Se, por acaso, acontecesse o milagre da vida. Não da vida que recomeça, pois esta já terminou, mas sim o milagre do final de um para que o outro possa existir. Neste caso em especial, enquanto há vida para um não haverá vida para o outro. Não se trata de egoísmo, mas de realidade.

Olho mais uma vez para aquela ‘forma disforme’. Não vejo ali o ser amado. Só consigo ver o peso morto de uma carcaça sem vida, ao menos em sua plenitude. Não penso, logo não existo. Sei que muitos vão me culpar e outros até mesmo vão me chamar de assassino. Mas a decisão está tomada.

Olho para os médicos e sinalizo. Um a um os aparelhos são desligados. As sondas são retiradas. O corpo nem mesmo treme. Não há sinal de vida partindo. Não há estertores. Apenas a paralisação de movimentos induzidos. Estamos livres. Os dois.

 

(PS: Não acredito nessas coisas que escrevi. Apenas tentei retratar o fato como se dele tivesse participado. É uma visão. Não concordo com ela, mas respeito).



Escrito por Régis às 16h36
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Um triângulo em busca do prazer

Tudo começou como das outras vezes em que eles se encontraram. Era apenas um encontro formal. Ao menos no primeiro impacto. Já havia tanto tempo destes encontros, onde o contato inicial, per se, não causava qualquer alteração. Mas ele sabia da possibilidade de tudo evoluir para algo mais.
Em cada reunião entre eles, mesmo as mais formais, sempre poderia descambar para algo mais forte. Poderia ser uma explosão repentina ou mesmo uma evolução lenta e gradual na união dos três.
OK. Era um triângulo, onde cada ângulo tinha sua função pré-definida no resultado final. Mas cabia a ele a parte mais importante na relação. Mas não se entenda nisso qualquer traço de machismo. Até pelo fato de existirem outros estrelas de três pontas onde a parte principal cabia as mulheres. Mas isso era problema delas e de quem descrevesse a relação delas.
Havia momentos onde a relação entre eles era da maior frieza profissional. Mesmo que fosse prazerosa em certos momentos era, de certa forma, um ato mecânico engendrado apenas para atender os interesses de outros. Mas até daí poderia haver alegria. Contudo, houve muitas vezes (e haveria ainda muitas outras, disso ele tinha certeza) em que tudo era apenas a automação da mente e do corpo para atender a algum pedido.
Mas da formalidade inicial do contato ele fez com que uma das duas outras passasse a se esfregar sobre a terceira. Esta, estendida sobre a mesa, sempre era a passiva na relação, cabendo a ele e a outra companheira a parte ativa. Mas mesmo a que exercia a função passiva tinha uma participação fundamental na relação, pois sem ela, não haveria o prazer final.
Inicialmente os movimentos eram lentos e um tanto exploratórios. Mas, nesse vai e vem de uma sobre a outra, ele começou a sentir um interesse maior. Uma excitação que brotava dos recônditos mais obscuros do corpo. E da mente. Sim, pois daí surgia cada um dos passos e movimentos que ele implementaria ou experimentaria sobre as outras participantes.
Com o aquecimento inicial dele conduzindo o vai-e-vem de uma sobre a outra, sentiu a atividade se tornando mais forte. Pensamentos lúgubres e até pecaminosos passavam na cabeça dele, pois como um voyer ativo via a evolução do ato e podia antever o resultado de tudo, onde o prazer final levaria cada um ao seu devido lugar. Pelo menos até um novo encontro.
Em certos momentos, devido à ânsia de elevar a temperatura da atividade, chegavam até mesmo a deslizar por sobre a mesa que lhes servia de apoio naquele instante. É claro já ter havido momentos em que tudo fora feito em pé, com a mão dele servindo de apoio. Em outros momentos, foi em cima da perna. Até mesmo encostado na parede já haviam tentado, mas o resultado não era satisfatório e as falhas de um ou de outro eram comuns. Mas para ações fortuitas e rápidas, qualquer coisa servia.
Havia preferência pela luz e claridade, mas nem por isso deixavam se exercitarem à meia luz. Mas ele sabia que pelo menos alguns lumens eram necessários para tudo chegar a bom termo. Ao serviço deles penumbra não era bem vinda.
Enquanto a chama da relação subia, qualquer um poderia ver que ele, acima e comandando, era, talvez, quem mais se beneficiasse do ato. A que permanecia por baixo, era a mais sobrecarregada pelo esforço. Além disso, era nela que os outros dois descarregavam os seus interiores. A do meio, tinha um desgaste constante. E todo ápice do prazer sobrava a ele. Mas não podia ser descartado o benefício para os que vissem o resultado de tudo.
Se algo desse errado, tudo seria escondido da vista de todos. Se tudo corresse bem, ainda que dificilmente houvesse planejamento nesses encontros prazeirosos, todos teriam acesso ao resultado final.
Foi então que o escritor olhou para a folha de papel onde estivera escrevendo com sua caneta e, ao ler o resultado do trabalho, sentiu um imenso e imponderável prazer pela criação. Inconscientemente, agradeceu as duas, que, como das outras vezes, lhe serviram a contento. Mas, à espreita, havia um terceiro personagem: um computador. Este pronto para intervir e assumir a função se não de uma talvez das duas.


Escrito por Régis às 19h00
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