Crônicas do Acre


Vista

 

Nem lembrava mais quando fora a primeira vez que a vira. Sabia não fazer muito tempo, coisa de algumas semanas. É bastante provável que das primeiras vezes tudo tenha passado despercebido, dada a falta de motivos para uma olhada mais detalhada. Mas com o passar do tempo o quadro foi se impondo no alto do horizonte escuro das noites urbanas. Mas agora isso já não importava.

Às vezes pensava se tudo não passava de uma distorção de imagens. Ou, quem sabe, uma assombração ou projeção de imagens, dessas que se faz hoje em dias nos prédios em todas as cidades grandes. Mas, fosse o que fosse, ele se apaixonou perdidamente por aquele quadro sempre repintado, noite após noite nas circunvizinhanças do seu apartamento.

Mas voltando à imagem, não era algo definido, onde os detalhes se apresentassem claramente. Primeiro havia a distância, distorcendo a visão. Não que fosse muito longe, mas era uma distância considerável para o olho humano, responsável pela pouca definição da imagem. Em seguida, havia a questão da pouca iluminação. À noite, mesmo com as luzes da cidade, não havia lumens suficientes para destacar detalhes. As sombras se projetavam a partir do prédio e a luz proveniente da parte interna fazia ainda mais difícil o contraste. Mas pelo que se via, para ele, já era o suficiente para sonhar e acelerar o coração.

O quadro era o seguinte: todas as noites, um vulto feminino surgia em uma sacada no décimo segundo andar de um prédio. Primeiro agitava-se, acendia um cigarro e balançava os braços, como se discutisse com alguém. Andava de um lado para o outro, de forma agitada. Depois de um espaço de alguns minutos, parava. Ou melhor, estacava.

Na sequência, projetava-se sobre a grade, balançando-se como se fosse se jogar. Depois, debruçava-se e ficava a olhar para o vazio. Pouco depois, começava a balançar a cabeça, fazendo balançar as madeixas longas. Primeiro de um lado para outro e depois para cima e para baixo. E aí começava a esmurrar a grade, como a se vingar de quem lhe fizera algum mal. Ao final, baixava a cabeça e assim ficava por um tempo, para depois entrar e desaparecer na parte interna do apartamento. E ele a tudo assistia, impotente diante do sofrimento dela.

Se pudesse, galgaria as paredes lisas e postar-se-ia ao lado dela para protegê-la. Não podia ver o sofrimento dela sem se condoer. Não sabia quem era o ou os responsáveis por tamanho sofrimento, mas por eles já nutria um ódio mortal. Se dele dependesse, já estariam todos em lugares bastante distantes daquela delicada figura que lhe adornava as noites vazias e solitárias.

Ele ficava a se perguntar qual seria o problema a causar tantas alterações. O que justificaria um sofrimento diário, transformado em ritual de sofrimento? Quem seria o responsável por tudo isso e cuja ascendência não lhe permitiria fugir?

Nem mesmo se perguntava mais quem era a figura da noite. Já não era mais necessário. Sabia apenas ser uma mulher e, ao que tudo indicava com base nos movimentos visíveis, era jovem e no viço da idade. Mas o que levava uma pessoa a pensar em suicídio, desesperar-se e esmurrar algo com tamanha agressividade? Era um misto de raiva, impotência e desespero. Como alguém podia ser tão cruel com uma pessoa tão bela? E ele ficava a ruminar a dor de sua amada.

Já no apartamento, agora visto por dentro, fora da vista dos outros, o jovem ‘metaleiro’ preparava o seu baseado após o silêncio imperar na casa. Quando tudo estava pronto, saía para o terraço e acendia, mantendo os braços em movimento para que o ‘pitilho’ não apagasse. Tão logo consumia, vinha a agitação, que o obrigava a se mover no pequeno espaço. Depois, quando começava o efeito da droga, segurava-se na grade e nela se apoiava. Quando chegava a letargia, ligava seu Ipod e começava a ‘benguear’ (ato de balançar a cabeça para acompanhar a música). Quando a música esquentava, fazia da grade sua bateria e, como se os braços fossem baquetas, acompanhava a música. Após, o clímax da música e da droga o deixavam em transe e ele ficava um tempo parado. Na sequência, aprumava-se e ia para dentro dormir e sonhar com a dose da noite do dia seguinte.



Escrito por Régis às 15h08
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Blue eyes female

Ele olhou o céu plúmbeo, encoberto por pesadas e baixas nuvens, e uma dor apertou-lhe o coração. Não foi uma dor forte como de um enfarto. Não, foi mais como se lhe cravassem lenta e dolorosamente uma fina agulha no músculo cardíaco e, à medida que esta fosse penetrando mais no âmago do coração, se tornasse mais grossa. Era uma dor de fora para dentro, ainda que na parte mais profunda fosse fina. Mas na parte externa era como se algo estivesse rasgando as fibras de seu miocárdio.

Mas a dor não era física. Era como se o problema se originasse em sua alma. Coisa do espírito e não do corpo, embora a sensação fosse como se este estivesse sendo atingido fisicamente. O corpo expressando ao seu jeito as mensagens da alma (continua).

No princípio não entendeu o motivo daquela angústia profunda e dolorida. Apenas sentiu. Mas aos poucos a capacidade de associação foi se impondo. O cérebro lentamente dava-se conta daquilo que o espírito já manifestava.

É claro que desde o primeiro sintoma ele já sabia o motivo. Apenas não queria admitir para si a razão de tudo, pois sabia que o sofrimento somente tenderia a crescer com a razão se impondo e as idéias clareando. A dor de tê-la visto morrer em seus braços doía demasiadamente até hoje.

Olhou novamente para o céu e rememorou o dia do primeiro encontro, considerando ser isso melhor que lembrar o fim trágico. Era uma noite fria e molhada. O resultado de um dia cinzento e chuvoso, com a noite sendo apenas o avanço das condições plúmbeas na direção do preto soturno. À noite o clima era pesado, úmido e com uma leve brisa gelada.

Nessa condição mais propícia a um filme de terror, onde alguns raios fantasmagóricos ainda riscavam o céu de tempos em tempos, ele a viu enquanto caminhava pela rua deserta. No primeiro momento, não prestou muita atenção ao pequeno vulto encolhido embaixo de uma pequena marquise, buscando um refúgio contras gotas de chuva que ainda caíam.

Ela estava molhada. Melhor, encharcada. Parecia que cada uma das menores partes de seu corpo abrigava uma gota de água. E estas, ao escorrer obedecendo à lei da gravidade, depositavam-se aos seus pés em uma poça. Era um quadro definitivamente feio daquela criatura tentando se abrigar do frio e da chuva.

Mas naquele quadro dantesco uma coisa lhe chamou a atenção: os grandes olhos azuis. Era um misto de medo e arrogância. Como a lhe dizer ‘me ajude, mas se não puder, pouco me importará’. Mas eram lindos aqueles olhos azuis, os quais embelezavam o rosto delicado. E ele se apaixonou por aquela criatura.

Deste encontro pouco mais se lembrava alem do fato de ter se aproximado delicadamente para não assustá-la mais. A comunicação foi instantânea. Havia uma química entre eles, como ele sentira desde a primeira troca de olhares. E para ela seguir com ele não foi difícil. Ele sabia ser ela uma personagem da rua, sem quem cuidasse dela, mas isso não importava. O que sentia era maior.

É claro que nem tudo fora um mar de rosas nos poucos anos de convivência. Ela descobriu que ele tinha defeitos e ele os dela. Quando irritado, às vezes, batia nela. Ela revidava. Não era fêmea de apanhar e ficar por isso mesmo. Quando as brigas eram fortes a este ponto ela fugia e ficava dois ou três dias fora.

Neste período o outro dizia para todos jamais aceitar um retorno, tendo aquela sido a última vez em que foram vistos juntos. Mas quando ela retornava, meio desconfiada, como se entrasse em casa pela primeira vez, ele esquecia tudo e a pegava instantaneamente no colo, cobrindo-a de carinhos e mimos, o que era imediatamente revidado em igual ternura. O amor era maior.

Das manias dela havia uma a irritá-lo profundamente: a atenção demasiada com as unhas. Por ela estar sempre as mantendo bem cuidadas, fazia com que ele odiasse cada gesto neste sentido. Outro ponto era a mania de limpeza e a forma como ela se banhava depravadamente na sua frente. Era lasciva demais ao tocar o próprio corpo. Havia também a forma escandalosa e barulhenta de fazer amor, algo um tanto exasperante. Mas tudo se olvidava quando os dois ficavam juntos e trocavam carícias.

Mas aquela criatura nefasta tinha de aparecer e se intrometer na relação estável deles. Aquele monstro asqueroso e envenenado surgiu como do nada e destruiu um amor verdadeiro. Todos os dias ele se punia por não ter tomado as devidas precauções e por não estar em casa no dia trágico. Se ele estivesse, ela poderia ainda estar viva. Se.

Mas ele não estava e a sua querida gata siamesa comera um rato envenenado, sendo encontrada agonizante nas proximidades dos restos do assassino. Tudo que pode fazer foi vê-la ir morrendo aos poucos, com a vida se esvaindo lentamente daqueles lindos olhos azuis, a sua paixão eterna.



Escrito por Régis às 18h10
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A morte da Velhinha do Seringal

Há algum tempo, quase por brincadeira, ‘localizei’ um personagem similar (e espelhado) na Velhinha de Taubaté. O personagem era a Dona Credentia, a Velhinha do Seringal. Segundo as pesquisas genealogenéticas efetuadas pelo Centro Acreano de Documentação de Pessoas e pela unidade de Mapeamento Genético da População Acreana, a idosa senhora era a última parenta viva da homônima paulista. A dileta senhora, que teve apenas umas duas ou três histórias por mim retratadas, tinha entre seus ídolos o jornalista acreano Washington Aquino e um papagaio chamado CAnibal.

Para D. Credentia um dos programa prediletos era ouvir Aquino em seu programa matutino na rádio Difusora. Ela acreditava quando o jornalista exaltava as vantagens e mudanças que estavam ocorrendo na ‘Florestania’. E de sua chácara na Vila Acre, de onde não saía há mais de vinte anos, ela imaginava um Acre seguro e próspero.

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A primeira crise de hipertensão da Velhinha do Seringal veio com a demissão de Aquino da rádio. Para ela, naquele nefasto dia que a notícia percorreu os rincões e grotões acreanos, era como se algo fabricado pelo mais fino cristal da Boêmia tivesse se partido. Como podia alguém não gostar do que era dito pelo rapaz?

Nesse dia a pressão sanguínea subiu. A Velhinha sentiu uma forte dor de cabeça, náuseas e uma vertigem. Atendida por uma unidade do SAMU, acionada pelo CAnibal (este aprendeu a fazer ligações para poder se comunicar com os outros papagaios da região). Os paramédicos atenderam e diagnosticaram um acidente vascular cerebral e encaminharam a idosa para o pronto-socorro do Hospital de Base, onde ela foi medicada e liberada poucas horas depois para se tratar em casa. Houve apenas um grande conselho: evitar grandes emoções.

Desde este dia D. Credentia passou a assistir televisão, onde poderia saber das notícias da ‘florestania’ e, finalmente, ver o seu ídolo apresentado aquele que, na opinião dela, era o melhor jornal televiso do mundo – até por ela não ver qualquer outro. A cada risada ‘espontânea’ de Aquino ela ia ao Nirvana. Nada passava mais credibilidade. A ‘independência’ com que o jornal era apresentado era algo valorizada por ela.

Mas a pressão dela passou a se alterar nos últimos tempos. De repente a ‘florestania’ não era mais tão bela. Alguma coisa estava errada neste imenso seringal chamado Acre. Os problemas estavam aparecendo e ela ficando cada vez mais atônita. Afinal, a vida não ia melhorar? E a pressão subindo como as água do rio Acre e a pluviometria do mês de abril.

Nos últimos tempos ela já era mais a mesma. Por conta das alterações no humor dela nem mesmo o Serviço Secreto da Florestania, o famigerado SSF, se interessava mais pelas palavras dela, já um tanto desconexas por conta do AVC. O SSF chegou até desligar o grampo da casa dela. Nem mesmo os pesquisadores do o IBGE -Instituto Bocacrense de Garimpagem Exclusiva, a serviço do governo do Estado, estavam mais interessados na opinião dela.

Quando foi neste último fim de semana a situação foi ao extremo. A velhinha ficou sabendo da demissão de Aquino da TV5. O verdadeiro bastião da credibilidade da floresta havia caído. Agora as manhãs não seriam mais as mesmas. Calava-se a risada mais apreciada e não se ouviriam os comentários concisos e coerentes. Quem defenderia a ‘Florestania’ de forma tão correta e verdadeira?

Uma dor aguda e violenta acometeu a velha senhora. Diretamente na cabeça. A escuridão se formou ao seu redor, seguida de náusea violenta e uma dor excruciante lhe irrompeu do peito. Era como se lhe fendessem o externo e expusessem o conteúdo peitoral. A dor foi tamanha que ela desfaleceu para desespero do CAnibal. Ele ainda ligou para o SAMU, mas nada mais podia ser feito. A vida havia se esvaído com a última notícia. Sem Washington Aquino na imprensa não havia mais motivo de vida.

Ao saberem da notícia do fim da última pessoa capaz de acreditar na propaganda oficial o SSF e o IBGE (Instituto Bocacrense de Garimpagem Exclusiva) se preocuparam com os destinos da Florestania e já estão à caça de alguém, pelo menos uma pesssoa, que acredite na propaganda oficial e com isso o governo possa se manter. Há controvérsias se isso é possível, mas somente o tempo dirá.



Escrito por Régis às 16h10
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A voz

Desde a noite de quinta-feira (2-abr-2009), o silêncio vai imperar nos aeroportos brasileiros. A voz que alertava passageiros para embarque e desembarque não mais será ouvida. O serviço foi extinto pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária-Infraero. A alegação? Poluição sonora.

Posso até concordar com eles com relação a alguns aeroportos do país por onde andei. Em alguns sequer se entendia o som dos alto falantes. Em outros, parecia uma gralha desafinada grasnando feito um corvo histérico. Estes podem e devem ser emudecidos. Pura poluição. Porém, em outros, deveria ser mantido.

A deusa dos aeroportos atende pelo nome de Íris Lettieri. Dona de voz sensual, a locutora, cantora e ex-atriz carioca despertava o imaginário de alguns passageiros que subiam e desciam dos aviões. Iris é considerada por correspondentes internacionais “a mais bela voz do mundo” (com informações da Infraero: http://www.infraero.gov.br/impr_noti_prev.php?ni=5071&menuid=impr).

O primeiro aeroporto a utilizar sua locução foi o de Manaus, em 1976. Mas com a inauguração do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro/Galeão, em 1977, que ela ficou mundialmente conhecida como a voz oficial desse aeroporto.

Contudo, nos últimos tempos, os anúncios estavam restritos aos Aeroportos de Guarulhos (São Paulo), Congonhas (São Paulo), Eduardo Gomes (Manaus), Antonio Carlos  Jobim/Galeão (Rio de Janeiro) e Santos Dumont (Rio de Janeiro).

Para mim a lembrança do Galeão/Tom Jobim ficará marcada para sempre na memória: "Atenção senhores passageiros com destino a Miami: embarque imediato no portão de número ...". Uma frase normal e corriqueira, mas que qualquer um gostaria de ouvir durante muito tempo se pronunciada na voz sexy Íris.

Eu já havia ouvido e visto essa senhora em programas de televisão. Era bonito. Mas nada se comparou ao delicioso choque quando sai para o saguão do Galeão/Tom Jobim e recebi aquela carícia em meus ouvidos. Parei. Melhor: Estaquei. Se você nunca ouviu, não saberá o que digo. Se já ouviu, saberá entender o meu estupor.

Imobilizado entre um passo e outro eu procurava no éter. Era como se a pessoa estivesse ao meu lado, falando lânguida e sensualmente só para mim. Convidando-me para ir para Miami – nem sei mais se era mesmo para lá – com ela. E eu teria ido de bom grado, se fosse verdade. Não sei quanto tempo fiquei parado naquela posição ridícula, com um pé à frente e o outro atrás. Acho que estava em pose semelhante à clássica foto do ex-presidente Jânio Quadros logo após a renúncia, com cada pé apontando para um lado diferente. Sem rumo.

Ouvir a ‘Voz’ de Íris Lettieri foi uma das sensações mais agradáveis para mim. Era como flutuar no espaço, sustentado pelas deliciosas ondas sonoras emitidas por ela. Mãos imaginárias, delicadas e sensuais, me acariciavam.

Tenho quase certeza da permanência desta lembrança em minha mente por todos os meus dias ainda restantes. Já se passou 15 anos da experiência e ela continua vívida. Talvez, em alguns anos, quando não mais lembrarem dela, eu estarei sentado com os meus netos e direi orgulhosamente a eles ter ouvido, um dia no passado, a mais bela voz do mundo.

Em termos de excelentes lembranças auditivas só posso dizer que ouvi-la no Galeão/Tom Jobim só pode ser comparado com a primeira vez que ouvi um Uirapuru na floresta Amazônica. Foi lindo. Mas este cantava sozinho, enquanto ela falava por um alto-falante em meio à cacofonia de vozes humanas e o ensurdecedor ruído de turbinas. Assim, para mim, ela ocupa o primeiro lugar.

Penso ser eu um privilegiado. Pude ouvir as duas mais belas vozes do mundo: um Uirapuru e Íris Lettieri. Acredito não haver neste mundo algo capaz de se comparar a estas duas emanações vocais. Mas pássaros existem vários. Íris só uma.

Só ficou uma pontinha de tristeza por não ter ouvido ao vivo e pessoalmente. Só para mim. Mas isso é avareza. Íris deveria ser compartilhada com todos. E assim o foi.

E então eu penso que se Rick Blaine (Humphrey Bogart) teve a sua Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e eles sempre terão Paris, eu e Iris Lettieri sempre teremos o Galeão/Tom Jobim. Ainda que ela não saiba disso.



Escrito por Régis às 14h30
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O Espírito de Natal

Por problemas, vou republicar uma crônica do Natal:

Era um dia como outro qualquer, com a diferença apenas que se haviam passado cinco dias do Natal. O tempo se apresentava chuvoso, como quase sempre neste período do ano na Amazônia brasileira.

Neste dia em especial saíra eu de casa com destino a Universidade Federal do Acre – UFAC para resolver alguns pequenos detalhes, sendo que posteriormente me deslocaria até o centro da cidade para outros assuntos. Como normalmente faço, levei apenas o dinheiro necessário para pagar o ônibus urbano em direção ao centro a partir da universidade e para o retorno para casa. No caso em questão, levara apenas cinco reais, pois a passagem custa R$ 1,90. Ou seja, isso me deixava uma margem de R$ 1,20, mas como não pretendia gastar em nada, bastava.

Em certo ponto, por volta do meio do trajeto até o centro da cidade, vi quando adentrou ao ônibus um rapaz de aparência jovem (algo em torno de 30 anos), tez morena, magro e com um detalhe que chamava mais a atenção: os olhos eram completamente brancos, revelando uma cegueira total.

Tão logo o coletivo saiu da parada onde o deficiente visual subira, este se aproximou da roleta e procurou falar com os passageiros, sem, contudo, passar para a outra parte do ônibus. Disse rapaz que estava pedindo ajuda para realizar tratamento em outro Estado por conta do problema de saúde que possuía.

Contou ser morador da área rural, onde teria acontecido o acidente fatídico. Relatou estar em uma caçada e quando foi fazer um disparo, acertou a si mesmo, sendo que dos quase quarenta caroços de chumbo a lhe atingirem a face, a metade já havia sido extraída. Dos restantes, alguns estavam perigosamente alojados no cérebro, razão de sua ida a outro Estado.

O pedinte, que revelou já ter ido a canais de televisão pedindo ajuda, revelou ter sofrido privações na outra vez em que teve de viajar para fora do Acre em busca de tratamento. Disse ter passado dois meses em outro estado com apenas o correspondente a um salário mínimo, sofrendo privações e muita fome, ele e a genitora. Relatou ter obtido as passagens desta vez, mas ainda não possuía os recursos para a manutenção dele e do acompanhante. Em face deste relato, buscava ajuda dos ouvintes.

Enquanto ele falava, meus olhos fitavam aqueles globos oculares totalmente brancos. Via-lhe a face contrita de quem é obrigado a esmolar para tentar tratamento de saúde. Via uma pessoa se humilhando e sentindo os efeitos disso no próprio corpo magro. Nisso eu pensava que se tivesse algum dinheiro de sobra, ajudar-lhe-ia. Mas, tornei a matutar, em uma época especial, onde todos celebram o Natal e atribuindo a isso uma mudança de caráter por conta de tudo a existir sobre o tema, pensei que não lhe faltariam mãos caridosas a fazerem doações.

Enquanto ele falava, pensei no quanto poderia ajudá-lo, pois quase não levava dinheiro, mas ao mesmo tempo esperava ver os auxílios se aproximando. Neste pequeno espaço de tempo, sacudi os meus bolsos e tirei uma moeda de um real e me aproximei do rapaz. Apesar de ser apenas simbólica a ajuda, estava lhe dando quase um terço de tudo que possuía no momento. Mas, pensei eu, o Espírito de Natal haveria de se manifestar e as pessoas iriam ajudar o rapaz, se não resolvendo o problema dele, ao menos minorando seus males.

Mas o rapaz permaneceu abraçado à coluna do ônibus, ao lado da cobradora, com seu olhar cego e vazio, enquanto o coletivo chegava na parada central, onde eu desci. E ninguém mais lhe deu uma mísera moeda. A expressão de tristeza naqueles olhos mortos me mostrou a realidade do espírito de natal (assim mesmo, em minúsculas).

Nessa época, final de dezembro, nos lembramos de comer, brindar, felicitar e presentear àqueles que conhecemos, mas não somos capazes de olhar o nosso irmão que nos estende a mão e pede apenas um pouco. A isso me vem à recordação dos ensinamentos do Menino: Quando a um destes meus pequeninos fizestes, a mim o fizestes (Bíblia: Mateus 25: 40). E constato não termos entendido a doutrina cristã.



Escrito por Régis às 18h20
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Pela vida

Acordo cansado depois de mais uma noite mal dormida. Mas não me deixo abater. É muito pouco que me é requerido para ajudar alguém a quem devo tanto e amo em proporção ainda infinitamente maior. Será mais um dia em luta pela vida. A dela.

Mesmo sabendo da possibilidade de ser este igual a tantos outros dias, onde as notícias simplesmente não existem, me mantenho firme. Não que seja fácil, pois não é nem um pouco, mas a luta é gratificante.

Cada dia é praticamente o mesmo: ir ao hospital, ajudar na higiene pessoal, contar-lhe histórias que não sei se está ouvindo ou entendendo – mas a mim basta a intenção e a vontade de, quem sabe, lhe fazer algo bom. As massagens nas articulações, músculos e ligamentos, bem como as flexões dos membros inferiores e inferiores são uma rotina para se reduzir os efeitos da inanição e ajudam a melhorar o ambiente.

É claro que ao vê-la em tal situação fico a me perguntar como seria se isso não tivesse acontecido e ela estivesse comigo na plenitude de suas forças. Mas não foi possível e temos de lutar contra os fatos. Estes dão conta dela estar totalmente paralisada e sequer com atividade cerebral.

Mas não é por conta dos problemas, meus e dela, que vou desistir. Enquanto houver vida naquele corpo, estarei do lado dele e fazendo a minha parte. Ou seja, vou fazer tudo ao meu alcance.

A degeneração é algo que se processa a olhos vistos em um corpo imóvel durante anos. Mesmo com as atividades físicas forçadas, há uma redução na massa muscular e um encolhimento de nervos e tendões. Os olhos vão se tornando encovados com o passar dos dias. O cabelo perde o viço e cai desgrenhadamente mesmo sem movimentos de cabeça. A pele se deposita sobre os ossos descarnados. O rosto murcha.

Mas quem disse que seríamos belos para sempre? Quem disse ser o amor o resultado de uma equação matemática conjugadora dos fatores beleza e viço? Se assim pensasse trocaria a esposa a cada quinze anos, quando os sinais do tempo se fizessem mais visíveis. Mas o amor tem de amadurecer com os anos e nós sabermos que a decrepitude será um fato. Se não for assim, a pedofilia será aceitável e não uma aberração ser combatida.

Me recuso a vê-la somente como um fardo, pois fardos somos todos nós. Cada um de nós é, de uma forma ou de outra, um peso para outros. Se não vejo beleza ou recebo de volta o retorno pelos meus préstimos, tenho em mente tudo que nos envolveu no passado. A cada gesto meu é como se restituísse ou devolvesse parte de tudo já tivemos. E por isso tudo, ainda estou na luta.

Médicos já me disseram não haver esperança e ser apenas uma questão de tempo. Ok. Vou esperar o tempo. Não serei eu o responsável pela sua morte. Quando chegar o tempo, a natureza seguirá o seu curso. Até lá, vou estar aqui, ao lado dela. O trabalho não diminui o meu amor e minha devoção.

Não vou desistir. Em algum lugar e em algum momento alguém pode ter a resposta para o mal que nos aflige. E, quando chegar este momento, quero estar aqui, ao lado dela, pronto para fazer o necessário para por fim a esta luta.

Não foi culpa de ninguém o ocorrido. Mesmo se culpa houvesse, isso não retiraria a responsabilidade daquele que ficou de lutar até o fim pelo restabelecimento do outro. Não se deixa um companheiro caído na estrada. Se ele não consegue se erguer, nós o levantamos e o apoiamos até o restabelecimento. Somos um o apoio do outro. Se na hora da necessidade somos egoístas e falhamos com os nossos, como nos autodenominaremos humanos?

Se tudo isso falhar e a perdermos a luta, ficará a sensação do dever cumprido. Não terei perdido meu tempo, mas mantido o respeito por mim mesmo.

 

(PS: Não sei se seria tão altruísta assim. Apenas tentei me colocar no lugar dele.)

 



Escrito por Régis às 16h42
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Liberdade

Estou cansado. Já não sei quanto tempo se passou da primeira vez que entrei neste local. È provável que o tempo possa ser contado em anos. Vários deles. Mais de dez, tenho certeza disso. O cansaço se impõe no corpo e no espírito. Dor física e mental. Dificuldade de entendimento.

Olho para os equipamentos de monitoração da vida: pressão arterial, freqüência cardíaca e respiratória, temperatura, atividade cerebral. Tudo igual. Afinal, controlado pelas máquinas de manutenção da vida não se movem além do estipulado pelo programador.

O poder da vida é compartilhado entre o fabricante da máquina e o médico que programa o equipamento de acordo com as necessidades da vítima. A morte não pode fazer a sua parte no devido tempo por conta da ação daqueles dois.

O objetivo é manter a vida. A vida de quem? A minha já não existe faz algum tempo. Sou escravo de um vegetal. Mesmo sem vontade própria este vegetal me domina e determina como devem ser os meus dias. A hora de acordar, de dormir. Até mesmo o pensamento possui um censor, capaz se cercear idéias lúgubres que insistem em pairar entre o consciente e o inconsciente.

São dias e noites insones. Existem momentos onde meus pés me levam a lugares onde não desejo estar. Talvez o ser sem vontade seja eu. Talvez a incapacidade seja contagiosa e hoje também seja eu um vegetal. Já não sei de mais nada. Não decido.

Olho para a figura a se deteriorar como se não a conhecesse. Já não é nem sobra da pessoa amada. Tratasse apenas de um pedaço de carne em decomposição. Degeneração lenta, gradual e constante. Encarquilhamento de pele. Atrofiamento de músculos e tendões. Órbitas encovadas, residência de olhos sem vida. E nem mesmo toda a fisioterapia do mundo pode mudar o inexorável.

O fim já aconteceu há muito tempo. O fim foi rápido e, penso eu, indolor. A degradação é que tem sido lenta. A morte em vida é mais dolorosa. Acompanhar a degradação sem vantagem é algo pelo qual ninguém deveria passar. As pessoas deveriam ser poupadas de enterrarem aqueles que o amam.

A dor de quem fica é enorme quando o fato causador acontece, mas, ao contrário daqueles que perdem seus entes de forma definitiva, enterrando-os, ficar sentindo-a a cada dia é masoquismo.

Quem enterra os seus perdidos, deles guarda a lembrança. É uma saudade doida, mas uma lembrança vívida. Os que são forçados a acompanhar a degradação em vida têm de sofrer o impacto principal e os pequenos impactos diários. Dor por atacado seguida pela dor no varejo. Sofrimento alopático inicial e homeopático no dia-a-dia.

Olho para aquele pedaço de carne disforme, com vida artificial e penso em como seria se o sofrimento chegasse ao fim. O sofrimento de todos. Se, por acaso, acontecesse o milagre da vida. Não da vida que recomeça, pois esta já terminou, mas sim o milagre do final de um para que o outro possa existir. Neste caso em especial, enquanto há vida para um não haverá vida para o outro. Não se trata de egoísmo, mas de realidade.

Olho mais uma vez para aquela ‘forma disforme’. Não vejo ali o ser amado. Só consigo ver o peso morto de uma carcaça sem vida, ao menos em sua plenitude. Não penso, logo não existo. Sei que muitos vão me culpar e outros até mesmo vão me chamar de assassino. Mas a decisão está tomada.

Olho para os médicos e sinalizo. Um a um os aparelhos são desligados. As sondas são retiradas. O corpo nem mesmo treme. Não há sinal de vida partindo. Não há estertores. Apenas a paralisação de movimentos induzidos. Estamos livres. Os dois.

 

(PS: Não acredito nessas coisas que escrevi. Apenas tentei retratar o fato como se dele tivesse participado. É uma visão. Não concordo com ela, mas respeito).



Escrito por Régis às 16h36
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Um triângulo em busca do prazer

Tudo começou como das outras vezes em que eles se encontraram. Era apenas um encontro formal. Ao menos no primeiro impacto. Já havia tanto tempo destes encontros, onde o contato inicial, per se, não causava qualquer alteração. Mas ele sabia da possibilidade de tudo evoluir para algo mais.
Em cada reunião entre eles, mesmo as mais formais, sempre poderia descambar para algo mais forte. Poderia ser uma explosão repentina ou mesmo uma evolução lenta e gradual na união dos três.
OK. Era um triângulo, onde cada ângulo tinha sua função pré-definida no resultado final. Mas cabia a ele a parte mais importante na relação. Mas não se entenda nisso qualquer traço de machismo. Até pelo fato de existirem outros estrelas de três pontas onde a parte principal cabia as mulheres. Mas isso era problema delas e de quem descrevesse a relação delas.
Havia momentos onde a relação entre eles era da maior frieza profissional. Mesmo que fosse prazerosa em certos momentos era, de certa forma, um ato mecânico engendrado apenas para atender os interesses de outros. Mas até daí poderia haver alegria. Contudo, houve muitas vezes (e haveria ainda muitas outras, disso ele tinha certeza) em que tudo era apenas a automação da mente e do corpo para atender a algum pedido.
Mas da formalidade inicial do contato ele fez com que uma das duas outras passasse a se esfregar sobre a terceira. Esta, estendida sobre a mesa, sempre era a passiva na relação, cabendo a ele e a outra companheira a parte ativa. Mas mesmo a que exercia a função passiva tinha uma participação fundamental na relação, pois sem ela, não haveria o prazer final.
Inicialmente os movimentos eram lentos e um tanto exploratórios. Mas, nesse vai e vem de uma sobre a outra, ele começou a sentir um interesse maior. Uma excitação que brotava dos recônditos mais obscuros do corpo. E da mente. Sim, pois daí surgia cada um dos passos e movimentos que ele implementaria ou experimentaria sobre as outras participantes.
Com o aquecimento inicial dele conduzindo o vai-e-vem de uma sobre a outra, sentiu a atividade se tornando mais forte. Pensamentos lúgubres e até pecaminosos passavam na cabeça dele, pois como um voyer ativo via a evolução do ato e podia antever o resultado de tudo, onde o prazer final levaria cada um ao seu devido lugar. Pelo menos até um novo encontro.
Em certos momentos, devido à ânsia de elevar a temperatura da atividade, chegavam até mesmo a deslizar por sobre a mesa que lhes servia de apoio naquele instante. É claro já ter havido momentos em que tudo fora feito em pé, com a mão dele servindo de apoio. Em outros momentos, foi em cima da perna. Até mesmo encostado na parede já haviam tentado, mas o resultado não era satisfatório e as falhas de um ou de outro eram comuns. Mas para ações fortuitas e rápidas, qualquer coisa servia.
Havia preferência pela luz e claridade, mas nem por isso deixavam se exercitarem à meia luz. Mas ele sabia que pelo menos alguns lumens eram necessários para tudo chegar a bom termo. Ao serviço deles penumbra não era bem vinda.
Enquanto a chama da relação subia, qualquer um poderia ver que ele, acima e comandando, era, talvez, quem mais se beneficiasse do ato. A que permanecia por baixo, era a mais sobrecarregada pelo esforço. Além disso, era nela que os outros dois descarregavam os seus interiores. A do meio, tinha um desgaste constante. E todo ápice do prazer sobrava a ele. Mas não podia ser descartado o benefício para os que vissem o resultado de tudo.
Se algo desse errado, tudo seria escondido da vista de todos. Se tudo corresse bem, ainda que dificilmente houvesse planejamento nesses encontros prazeirosos, todos teriam acesso ao resultado final.
Foi então que o escritor olhou para a folha de papel onde estivera escrevendo com sua caneta e, ao ler o resultado do trabalho, sentiu um imenso e imponderável prazer pela criação. Inconscientemente, agradeceu as duas, que, como das outras vezes, lhe serviram a contento. Mas, à espreita, havia um terceiro personagem: um computador. Este pronto para intervir e assumir a função se não de uma talvez das duas.


Escrito por Régis às 19h00
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Dilúvio

Tudo começara como sempre, com apenas algumas gotas a se precipitarem no vazio. Nos primeiros momentos até achara interessante acompanhar a queda daquelas pequenas porções de água a se deslocarem no vazio do compartimento onde estava. A água era a fonte da vida e vê-la caindo causava certo prazer.
No princípio não se incomodara quando aquelas bucólicas gotas se juntaram tal qual mercúrio. Até achou interessante o fato de parecer que elas se atraíam devido sua fraqueza individual até formarem pequenas poças. Assim, já mais fortes, procuravam uma saída e, no caminho, uniam-se às outras desgarradas e ficavam ainda mais poderosas.
Neste período inicial não atentou para o fato de que com o aumento da umidade tinha havido também uma proliferação de manchas. Estas cresciam e se multiplicavam em uma razão direta do aumento dos bolores no local.
Mas as pequenas partículas cadentes pareciam ter vida própria. Assim como podiam ser comparadas a bebês no princípio, também não continuaram a se desenvolver e passaram para o ponto de gotas adolescentes. Mas mesmo assim, o quadro por elas desenhadas ao redor dele ainda podia ser considerado como belo. Também não notou o fato dos móveis do local mudarem de cor, com alguns se desmanchando quase que por inteiro por conta da desagregação causada pela umidade.
Mas quando as gotas cadentes ampliaram-se e se tornaram pequenas cascatas em miniatura, já não achou a coisa tão interessante. Afinal, já restavam poucos locais onde pudesse ficar sem receber ao menos alguns respingos. Mas mesmo com a sessão de contorcionismo para fugir das mais agressivas, ainda era bom, pois com a chuva a temperatura havia se tornado mais amena e tolerável.
Mas um novo ciclo se instalou. E as pequenas cascatas cresceram. Já não havia mais local para se esconder. Onde quer que fosse, era encharcado pelo grande volume de água que jorrava praticamente de todos os cantos.
Suas roupas e calçados estavam encharcados. Alguns artefatos que antes jaziam pelos cantos do compartimento já se deslocavam de um lado para outro ao sabor do movimento das águas.
Uma coceira no nariz, seguida de um espirro. Um calafrio que lhe fez o corpo tremer como um todo. A roupa encharcada a lhe reduzir ainda mais a temperatura corporal. Tudo levando a crer que um resfriado ou mesmo uma gripe se avizinhava.
Lá fora o tempo ribombava em trovões azulados, revelando que a tempestade ainda não atingira seu pico. O vento também trazia sua contribuição para tornar tudo ainda mais insalubre, jogando mais e mais gotas de água e umidade para o local. Tudo se acrescia ao espaço já tomado pelas cachoeiras.
Um novo calafrio, desta vez um misto de tremor e terror por conta da situação que já se mostrava um tanto fora de controle. A cama já era apenas um charco, de onde a água já escorria por força da gravidade e buscava juntar-se ao restante. Tudo parecia estar chegando ao seu clímax. O ponto de onde não haveria mais volta. O local onde os meninos se separam dos homens. O lugar das decisões importantes e definitivas.
Foi a aí que ele levantou os olhos para o teto do quarto, onde a única lâmpada balouçava sob o vento. Prestou bem atenção nos locais de onde vinha a água. Olhou para os locais por onde o vento empurrava as gotas de chuva de forma direta sobre ele. Chegara o momento.
Levantou-se, abriu a porta do quarto e foi dormir na sala. Com a identificação dos pontos onde estavam as goteiras, decidiu que na manhã seguinte subiria ao telhado e consertaria as goteiras. Mas, por hoje, o sofá da sala deveria bastar.

Escrito por Régis às 14h37
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Degradação e morte

Eu sempre passava por cima de onde ele estava e o via movimentar-se logo abaixo da ponte. Nas primeiras vezes pouca atenção lhe dei. Mas com o passar dos anos dessa convivência pacífica, comecei a notar e a lhe dedicar um ou outro olhar mais detalhado. Mas mesmo hoje não sei exatamente de onde ele vem.
Mas voltando ao transcorrer do tempo, pude testemunhar o agravamento de sua doença. No começo foi apenas certo turvamento, um escurecimento superficial. Mas mesmo assim era possível sentir-se a vida em seu interior. Não era um aspecto dos melhores se comparado a outros em situação semelhante, mas ainda assim não causava maiores problemas. Se não era o melhor, ficava longe de ser o pior.
Seguindo, vi quando, há cerca de cinco ou seis anos, por conta de uma ação da Prefeitura, houve uma melhora incrível em seu aspecto. É claro que o fato não se deu de um momento para outro, mas de forma lenta e gradual. Primeiro foi o clareamento e a melhoria do cheiro. Aos poucos já era possível passar pelo local onde ele fica e não precisar virar o rosto para outro lado na tentativa de se omitir dos problemas por ele enfrentados.
Pouco depois já foi possível mesmo olhar diretamente para ele. Desse momento em diante as pessoas até mesmo já admitiam certo conforto ao passar pelo local. Um pouco depois, cerca de um ou dois anos, já era realmente agradável conviver com ele. Já não havia mau cheiro e podia se sentir a vida em seu interior. Sim, que passava pelo local se espantava pela mudança ocorrida em tão pouco tempo. Era como se um doente em avançado estado de degradação e, por que não dizer, condenado à morte, voltasse a uma vida normal. E as pessoas se felicitaram por morar vida e beleza debaixo daquela ponte.
Mas, tão logo houve este verdadeiro milagre, tudo voltou a ser como antes. Na realidade, tudo ficou ainda muito pior. Como se o interregno de saúde, vida e beleza nunca tivesse existido.
Tão logo como fora a ação do Poder Público Municipal em defendê-lo, fora a ação para abandoná-lo. Os remédios aplicados para salvá-lo deixarem de ser aplicados. E, como um porco que retorna ao seu lamaçal, ele começou a definhar novamente. E numa velocidade não vista nos outros momentos de dificuldade.
Em cerca de dois anos era como se nada tivesse sido feito. Foi como se o relógio andasse para trás e ao chegar ao ponto ruim voltasse ao curso normal. Só que mais acelerado. E a degradação foi visível.
Houve um rápido turvamento. Que se transformou em negrume. Depois o cheiro. O mau cheiro. Que virou insuportável. Nauseabundo. Podre. Era um misto do odor de fezes e urina.
Não era mais possível olhar para ele. Eu, como os outros, sempre que passava por cima de sua ponte, virava a cara e torcia o nariz. Mas não fazia nada. Apenas assistia a decadência e o martírio. Enquanto isso, ele agonizava ao alcance de minha mão.
Agora, quando estou a escrever esta crônica, fico a pensar quem poderá salvar o Igarapé Dias Martins. Sim, este é o nome dele. O pequeno curso d’água que cruza o parque Zoobotânico da UFAC, passa por debaixo da BR 364 e deságua no Igarapé São Francisco está agonizando.
Se há pouco tempo era possível ver-se os peixes em suas águas claras (após a construção da Estação de Tratamento de Esgotos do Bairro Mocinha Magalhães), agora é apenas um espaço de águas pretas, em cima do que fica uma nata esbranquiçada. Em seu interior não há mais vida. Os peixes que não puderam fugir morreram.
E tudo isso devido ao fato de uma bomba elevatória ter dado problema. E ninguém faz nada para arrumar. Com isso o esgoto das cerca de 1,4 mil casas do Conjunto Universitário deságuam diretamente no pequeno igarapé sem qualquer tratamento. E, assim como eu, o Poder Público (e o Ministério Público) não faz nada. Espero que após este lamento, alguém faça algo por este manancial. Espero que um dia eu possa ver novamente os peixes e a vida no local.


Escrito por Régis às 15h45
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Suicida

Fora mais uma noite insone. Como em tantas outras, ficara a perambular de um lado para outro. Se alguém lhe perguntasse por onde andara, não saberia dizer. Não tinha idéia nem mesmo se realmente caminhara ou mesmo se saíra do lugar. Afinal, todos os lugares eram iguais nos últimos tempos.

A isso se somava a incapacidade de sentir cansaço. A sensação de estafa muscular já não lhe acompanhava mais. Era como se as suas fibras tivessem se transformado em ligamentos do mais puro aço. Não importava a distância. Se é que andava.

O dia já clareara havia algum tempo. Agora com o Sol já tendo espantado os últimos negrumes da noite, começava um novo dia. Um novo dia com a mesma cara do velho. De muito velho. Mais um período igual a tantos outros. Apesar da intensidade do Astro Rei não sentia mais calor. Era como se cada uma das terminações nervosas de seu corpo tivesse deixado de notar as variações climáticas. Frio ou calor já não importava mais. Nem mesmo se recordava quando fora a ultima vez que sentira frio. Havia sido frio na noite anterior? Não sabia. Ou não lembrava. Tanto fazia, pois quando não se valoriza a sensação, não importa se elas - as mudanças - ocorrem ou não.

Já estava cansado disso tudo. Cansado de não ficar cansado. Como era estranha a situação. Queria sentir frio para poder se aquecer no sol. Queria um ar-condicionado para poder se refugiar do calor. Insatisfação. Incoerência. Características humanas.

Mas o drama não acabava aí. O que mais lhe incomodava era a indiferença das pessoas para com ele. No começo, dada sua personalidade arredia e tímida, não sentira falta. Até gostava do fato da multidão não ‘dar bola’ para ele.

Mas com o passar do tempo tudo fora ficando mais difícil. Era como se a solidão fosse um ser silencioso ao lado dele. Quase física. Tangível. Irritantemente quieta. Muda tal qual um cadáver. Não conseguia entender.

Enquanto pensava estas coisas veio-lhe à cabeça a idéia de dar um fim em tudo. Acabar com aquele sofrimento. Dar um basta na solidão metendo uma bala na cabeça da solidão e atingir a sua própria na seqüência. Mas, assim como veio, a idéia se desfez.

De repente, ficou a pensar quando fora a última vez que repousara para valer, ou seja, dormira. Não tinha a menor idéia. A sensação estranha voltou novamente. Não dormia – ou não lembrava de ter dormido, mas também não sentia sono. Até por não mais noção de tempo. Um dia era apenas o outro lado da noite. Apenas o pólo positivo do negativo.

Vendo as pessoas se movimentando, indo de seus lares para seus trabalhos, ficou pensado o que acontecera com ele, pois não tinha casa nem trabalho. Mas também não sentia falta de nenhum deles. Era como se isso não tivesse a menor importância. Ou talvez tivesse, mas no momento não importava. Não mais.

Pensou em dar uma volta e tentar se comunicar. Tão logo pensou agiu. Partindo em direção ao mar de pessoas a se movimentar em sentido contrário ao seu, avançou diretamente. Mas eles passaram por ele. Como se simplesmente ele não estivesse ali. Trespassado.

Desesperado, começou a gritar. Aproximou-se de vários transeuntes e proferia palavras diversas, desde pedido de socorro até os mais escabrosos palavrões e ofensas. E nada.

A dor da solidão se faz pungente. Doeu como uma lança a trespassar-lhe o corpo inteiro. Na realidade, era como se todas as lanças do mundo estivessem sendo cravadas em cada poro. Não sentia as dores e sensações físicas, mas as da alma eram absurdas e muito acima do tolerável. Eram as agonias do espírito. A dor daqueles que não tem a quem recorrer. A dor dos solitários. E a idéia voltou.

Decidido a se suicidar, andou em direção à rua. Ficou a olhar o trânsito e se descobriu pensando qual seria o veículo escolhido para por fim a seu drama. E ele veio na forma de um grande caminhão. Sem pestanejar, atirou-se na frente dele. Não estranhou o fato do motorista não ter feito qualquer tentativa de brecar. Também não estranhou o fato de não ter sido atingido. Afinal, fantasmas não morrem. Apenas sofrem suas solidões.

Escrito por Régis às 11h36
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Elogio à simplicidade

Em muitas Academias (leia-se Universidades) por este mundo a fora são comuns pessoas que se jactanciam de seus altos níveis de inteligência e de conhecimento. Usam seus diversos anos de estudo como forma de diminuir aqueles que deles se aproximam. O título vai primeiro. Não entro no mérito psicológico sobre a possibilidade de serem pessoas diminuídas em outros pontos do amadurecimento do caráter e, quem sabe, em outras partes físicas de seus corpos.

Estas pessoas, do alto de seus doutorados e pós-doutorados, são pedantes, arrogantes e incapazes de olharem para seus próprios pés ou mesmo suas origens. São recalcados e solitários, embora, às vezes, possuam um grupo de pessoas próximas. Mal amados.

É claro não ser isso uma regra, pois existem muitos doutores com humildade e capazes de manterem relações respeitosas com as pessoas mais simples. Mas não me alongarei sobre eles. Por enquanto basta.

O que me leva a escrever hoje é um funcionário da UFAC. Trata-se de um ex-seringueiro, que no passado sangrou árvores do gênero Hevea nos seringais da bolívia. Anos difíceis e sob a tutela de um governo que não o reconhecia. Segundo ele, não fora dos piores, alcançando produções da ordem de 500 kg de borracha ao ano. Isso o coloca entre os seringueiros medianos.

Como muitos outros servidores da velha guarda, entrou na Academia sem concurso antes da Constituição de 1988. E foi ficando (isso mesmo, foi e ficou, o estilo do texto nos permite estas aberrações), sem incomodar e sem ser incomodado.

Sem ter tido oportunidade de estudo é analfabeto funcional. Até hoje executa trabalhos menores, daqueles rejeitados pelos mais graduados. É o responsável por alguns pés de macaxeira nas proximidades da reitoria. Foi também responsável, em anos passados, por serviços braçais junto ao antigo Departamento de Ciências Agrárias, onde o conheci cuidando dos blocos para estudos de forrageiras (capins).

De compleição franzina e baixa estatura, é uma figura simpática e simples. Sempre cumprimentando a todos (às vezes mais de uma vez). Aqueles que tiveram a oportunidade de lhe apertar a mão verificaram as calosidades desenvolvidas por longos anos de esforços físicos. E como ele gosta de apertar a mão do interlocutor!

É claro que não é perfeito. De quando em quando toma algumas e sai a perambular sem rumo. Mas mesmo quando já está meio para lá do ponto de equilíbrio, o único defeito é pedir para alguém lhe pagar mais algumas. Fora isso, se for uma festa, fica dançando só e se divertindo da mesma forma. Por conta disso, às vezes é motivo de piadas.

Diversas hipóteses foram apresentadas por conta do apelido dele. Como não gosta delas, não escrevo nenhuma.

É uma criatura alegre, cuja simplicidade no ser e no agir deveria ser seguido por muitos nesta academia. Em sua simplicidade de vida nos ensina sem precisar de giz. Até seus erros são para nós aulas daquilo que não devemos ser. É uma boa pessoa. Independente de seus defeitos é merecedor de meu respeito e consideração.

Para quem não o conhecesse, este é o senhor Francisco Gonçalo Sobrinho ou, como muitos o conhecem, simplesmente seu “Chico Lepo-lepo”. Na simplicidade e humildade dele algumas pessoas desta academia deveriam se inspirar, principalmente quando tratam os outros. Muitos resultados de ações recentes, cujas avaliações ‘científicas’ hoje apontam em outras direções, seriam diferentes se os atores se espelhassem na singeleza e respeito deste nobre cidadão.

Aquele que talvez seja o menor na Academia, quem sabe seja quem mais tem a ensinar em termos de vida e no trato com outros seres humanos. Talvez resida nesta espécie de metáfora aquilo que Cristo disse com relação de que os humildes herdaram o reino dos Céus. Os outros nem mesmos os reinos da terra, pois não os sabem conquistar e, se os tomam, não os sabem conservar.



Escrito por Régis às 17h25
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Oposição garante sustentação

O grupo já estava reunido há algum tempo. Como sempre estavam todos enfileirados. Mas mesmo assim não havia ordem na arrumação. Se fosse com relação à altura via-se estarem nas pontas os menores, com os intermediários nas primeiras posições intermediárias. O mais alto ficava ao meio.

Se a questão para uma arrumação fosse a força, novo desequilíbrio entre todos, embora os centrais se equivalessem em termos de capacidade física. Aliás, estes eram os mais parecidos entre si. Mas nas pontas ficava o desacerto. De um lado, o mais frágil, enquanto no outro extremo o mais forte.

Era um grupo de trabalho fadado a dar errado, pois não havia distribuição das forças ou sequer dos tamanhos. E como a maior parte do serviço era de esforço físico, não havia futuro para a mão humana.

Foi aí que o dedo Médio (o maioral), fez valer o seu tamanho. Apresentou-se ao restante do grupo como sendo o mais importante. Afinal, seu tamanho revelava isso, além de ser um dos mais forte. Chamou a atenção para o fato de, quando exigido, ser ele o responsável pela maior ofensa do grupo, onde os laterais se encolhiam e ele se projetava. O Fato de se reduzirem para ele aparecer, era a prova disso.

Por outro lado o Anelar (ou Anular, nome que disse não gostar de usar pelo sentido pejorativo) salientou ser ele o mais visto. Afinal, quem olha para outros se nele ficam os principais anéis e os símbolos dos maiores compromissos.

Nessa altura o mais fraquinho e mirrado do grupo, o Mínimo, entrou na discussão e disse também ter a sua importância, afinal qual é o dedo mais apropriado para pequenas e delicadas tarefas, como coçar o ouvido ou mesmo limpar cantinhos recônditos da narina? Ora, ele também se candidatava à vaga de mais importante, pois se faltava em força, sobrava em delicadeza.

Aqui surge então o Indicador, na sua vocação principal de apontar e identificar os outros. O dedo-duro afirmou estarem todos errados com relação as suas importâncias. Primeiro desancou o Médio, dizendo se este um trapalhão e deslocado no meio do grupo, cuja função começava e terminava na obscenidade. O anelar, se lhe tirassem as externalidades brilhosas, pouco lhe sobrava. Era como uma top model, mas quando lhe tiravam os adereços ficava reduzido a nada. Sobre o mínimo, disse recusar-se a falar, pois este era apenas o faxineiro dos cantos esquecidos, sem força ou glamour. Logo, ele, indicador, apontador desta leitura de funções, era o melhor.

Enquanto o clima esquentava, com todos já se ameaçando e querendo partir para o confronto físico, o Polegar interveio. Graças à sua força física, se impôs na discussão e determinou silêncio. Tão logo pode ser ouvido, falou.

“Vejam, vocês, o quanto estão errados. Todos são belos e formosos, ums mais altos outro mais esbelto. Eu, pelo contrário, sou aleijado, com uma falange fora de posição, a qual me deixa anão. Sou o mais forte, mas também sou o mais gordo. Minha unha é descomunal se comparada com a de vocês. Além disso, sou o único que de fato me oponho a suas ações. Com isso, eu que lhes empresto o vigor necessário para a maior parte das atividades”.

O polegar destacou um fato de ser a rotação da base dele, a qual de opõe aos movimentos dos outros, a responsável pela distribuição da força do conjunto. Sem oposição, o conjunto da mão não executaria tarefas tão importantes e belas. Mas ressaltou o fato de que, sozinho, a força e a rotação não serviriam para nada.

O grupo então fez silêncio. Havia finalmente o entendimento da importância individual de cada um, onde todos possuíam valores diferentes. Mas entendeu-se que sem oposição em todas as coisas não há estabilidade e que a diversidade é complementar quando há um interesse comum. Forças que somam e uma oposição forte são a chave de um bom trabalho. Independente da mão onde estejam.



Escrito por Régis às 19h00
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Fim de relação

Há quanto tempo estavam juntos?

Não soube responder a esta simples questão. Mas as voltas do ponteiro ao longo dos 360 graus do relógio ou mesmo os deslocamentos da terra em seu ciclo lunar (ou solar), pouco importa quando a relação foi gratificante. E esta havia sido recheada de momentos agradáveis.

Não lembrava como havia se dado o contato inicial. Mas, pelo que era possível rememorar, o primeiro impacto tinha sido negativo. Afinal, o visual dela não era dos mais finos. Na realidade estava mais para ordinária do que chique. Ou, talvez, simples que sofisticada.

Não soube dizer, pois se houvera algo mais, não foi levado em consideração, exceto a possibilidade de que ela atendesse aos anseios dele quando e onde fosse requisitada.

Mas ele lembrava-se do trabalho dela nos primeiros contatos. Era até mesmo gostosa se tocar, embora seu corpo não fosse dos mais torneados, sendo longilínea onde deveria haver curvas. Contudo, desincumbia-se galhardamente quando era solicitada.

Não que não tenha se interessado por outras, bem mais elegantes e preparadas. Mais bonitas mesmo. Mas para que essa ‘chiqueza’ toda, se no final o serviço prestado seria o mesmo? Mas tinha de admitir a beleza das outras, mesmo que isso significasse investimentos maiores em tê-las. Mas, se vida é mesquinha, o que se há de fazer?

Afinal, no serviço, quando jovem, era macia e deslizava como uma gueixa bem treinada para atender aos anseios de seu senhor. Não importava a posição solicitada para cumprir sua função natural. À esquerda ou à direita, sempre estava pronta, exceto quando era posicionada de forma contrária à gravidade, momentos que um certo ‘desequilíbrio’ passageiro lhe impedia de trabalhar, mas tão logo era devolvida à posição correta, voltava com toda a força.

Quando o assunto era trabalho, não ficava a dever às suas congêneres mais sofisticadas. Mesmo sem pompa ou aparência, executava o mesmo serviço quando o tema era profissionalismo.

Na companhia dela, rememorou, foi capaz de percorrer o mundo, deslizando pelos diferentes países, sem importar-se com as fronteiras desenhadas por outros. Juntos pousaram em diversas cidades e lugarejos, que de tantos, já não mais se recordava.

Juntos, pagaram contas e assumiram compromissos. Esteve com ele nas alegrias, nas farras e nas despedidas. Até mesmo nas cartas de amor ela fora fundamental.

Porém, com o passar do tempo, findo viço da juventude, tornara-se um pouco resmungona e nem sempre respondia quando solicitada. Quando esfriava, demorava a entrar em condições de trabalho. Era necessário friccioná-la, o que nem sempre era de bom alvitre quando em público.

Várias vezes fora motivo de chacota por ter de esfregá-la em público. De forma reservada ou mesmo aberta, alguns amigos já haviam sugerido que se desfizesse. Não deveria ser visto em público com uma companhia daquelas, pois sequer atuava como deveria, fosse com ele ou com os outros a quem servia esporadicamente.

Durante um tempo ele ainda se manteve fiel, mesmo com os conselhos em sentido contrário. Mas com o decorrer do tempo começou a se cansar. Afinal sua estética estava ficando decrépita, já sem nenhum brilho e parte superior já demonstrando todos os sinais de uso. Em suma, estava velha. Ultrapassada. Sem utilidade.

Assim estava ele pensativo, quando, num impulso digno de uma tragédia grega, soergueu-a com a mão, aproximou-se da janela do apartamento e a arremessou pela janela do décimo andar. Por alguns instantes ela flutuou no ar, como a se despedir daquele a quem servira e, depois, caiu desaparecendo no gramado abaixo. Ele então decidiu que não poderia ficar sem uma igual e, na manhã seguinte, iria até o jornaleiro e compraria outra caneta esferográfica barata.



Escrito por Régis às 19h07
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Sabe Moço ...

O xirú velho enrodilhou-se mais que rabo de guaipeca. Também pudera, o minuano passara a noite toda soprando e, naquele momento, na adolescência do século XX, cortava mais que língua de sogra. A presença do vento tinha como alento apenas o fato de não se formar geada, o que deveria ocorrer em algumas horas ou mesmo dias. Mas a baixa temperatura chegava-lhe até aos ossos já afetados pelos anos.

O índio velho bombeou as coxilhas no horizonte, como que espera uma carga de lança e espada ou, ainda, de uma carga de cavalaria. Passou a língua pelos lábios grossos (resultado da mistura castelhana, negra e índia), enquanto enchia o a cuia com água quante, para tentar aquecer o pelo duro de taura sulino.

Enquanto sorvia e degustava o mate-amargo, concentrando-se no sobrenadante, recordou-se das diversas lutas e revoluções em que se metera.

Ainda piazito, fora Maragato na ‘Federalista’ de 1893, seguindo Silveira Martins, embora não entendesse muito sobre o porquê da briga. Mas se a peleia estourara, estava no meio dela, sempre seguindo o repiquetear de um clarim e a um coronel.

Já na de 1923, já não era mais menino. Na realidade era entradito em anos, mas mesmo assim fôra partidário de Borges de Medeiros, deixando os maragatos de lado e virando Chimango. Com o estouro da 1930, velhusco e com o couro curtido pela vida campeira, voltara a pegar em armas de forma mais clara. Não que tivesse o mesmo viço de cambuim, mas a guajuvira sempre deu bom cerne. E era esse o potencial sempre buscado pelos coronéis.

O problema é que, como sempre, quando o cheiro acre da pólvora se perdia no ar e o sangue vertido secava no solo, somente as viúvas e órfãos lembravam daqueles que se foram na peleia.

Para alguns sobreviventes de tantos entreveros como o xirú velho (sim, pois estes foram apenas os maiores onde andou terceando ferro e sapecando melenas), muito pouco restou.

Se para os grandes chefes, seus chefetes, comandantes e ordenaças sobraram medalhas, brazões, cartas e recomendações, posse e mimos, não importando se a guerra fora perdida ou ganha, para a xiruzada nada ficara. Mas foram estes aqueles que mataram ou morreram nas e na campanha. Era os corpos deles que ficaram estirados na relva.

O índio passou a mão pelo corpo. Quantas cicatrizes. Algumas eram de trabalho, como ‘queimadas’ por laço que trocou de lado e correu por cima do corpo, alguns aspaços de touro alçado. Mas a maior parte eram mesmo resquícios dos entreveros das revoluções. As cicatrizes de batalha foram o único saldo das batalhas travadas.

Estocadas de espada, talgaços de facão, pranchaço de adaga, cutucão de baioneta, caminho de bala e, como se não bastasse, saldo de porretadas com os mais diversos objetos nos momentos em que se foram as armas.

Pensou que cada cicatriz tinha uma história, as quais poderia contar aos netos, se oa menos tivesse um. É, por causa da vida gaudéria, largado a la cria, as únicas mulheres a lhe aquecer o pelo na juventude foram as de vida fácil. O resultado disso era uma solidão tão gelada quanto o minuano gemendo na cumeeira da tapera.

Mas, pensou ele, se eu tivesse ganhado medalhas ou cartas, o que teria feito com elas? Teriam sido trocadas por algum trago de canha? Seriam esquecidas caídas debaixo de alguma cama no chinedo? É bastante provável.

Repassando as marcas no corpo, entendeu estar ali a maior de todas as medalhas, marcadas de forma indelével no seu corpo pelo valente inimigo vencido, tal qual a marca a ferro que um terneiro leva por toda a vida. Ostentada com orgulho, cada cicatriz era como uma homenagem aos outros combatentes de bandeira diferente. E sentiu orgulho pelos feitos, ainda que com amargor pela vida esvaziada pelas lutas alheias.

Crônica baseada na Música Sabe Moço, de Leopoldo Rassier. As expressões gauchescas possuem hiperlink para esclarecimentos.



Escrito por Régis às 20h18
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