Crônicas do Acre


Elogio à simplicidade

Em muitas Academias (leia-se Universidades) por este mundo a fora são comuns pessoas que se jactanciam de seus altos níveis de inteligência e de conhecimento. Usam seus diversos anos de estudo como forma de diminuir aqueles que deles se aproximam. O título vai primeiro. Não entro no mérito psicológico sobre a possibilidade de serem pessoas diminuídas em outros pontos do amadurecimento do caráter e, quem sabe, em outras partes físicas de seus corpos.

Estas pessoas, do alto de seus doutorados e pós-doutorados, são pedantes, arrogantes e incapazes de olharem para seus próprios pés ou mesmo suas origens. São recalcados e solitários, embora, às vezes, possuam um grupo de pessoas próximas. Mal amados.

É claro não ser isso uma regra, pois existem muitos doutores com humildade e capazes de manterem relações respeitosas com as pessoas mais simples. Mas não me alongarei sobre eles. Por enquanto basta.

O que me leva a escrever hoje é um funcionário da UFAC. Trata-se de um ex-seringueiro, que no passado sangrou árvores do gênero Hevea nos seringais da bolívia. Anos difíceis e sob a tutela de um governo que não o reconhecia. Segundo ele, não fora dos piores, alcançando produções da ordem de 500 kg de borracha ao ano. Isso o coloca entre os seringueiros medianos.

Como muitos outros servidores da velha guarda, entrou na Academia sem concurso antes da Constituição de 1988. E foi ficando (isso mesmo, foi e ficou, o estilo do texto nos permite estas aberrações), sem incomodar e sem ser incomodado.

Sem ter tido oportunidade de estudo é analfabeto funcional. Até hoje executa trabalhos menores, daqueles rejeitados pelos mais graduados. É o responsável por alguns pés de macaxeira nas proximidades da reitoria. Foi também responsável, em anos passados, por serviços braçais junto ao antigo Departamento de Ciências Agrárias, onde o conheci cuidando dos blocos para estudos de forrageiras (capins).

De compleição franzina e baixa estatura, é uma figura simpática e simples. Sempre cumprimentando a todos (às vezes mais de uma vez). Aqueles que tiveram a oportunidade de lhe apertar a mão verificaram as calosidades desenvolvidas por longos anos de esforços físicos. E como ele gosta de apertar a mão do interlocutor!

É claro que não é perfeito. De quando em quando toma algumas e sai a perambular sem rumo. Mas mesmo quando já está meio para lá do ponto de equilíbrio, o único defeito é pedir para alguém lhe pagar mais algumas. Fora isso, se for uma festa, fica dançando só e se divertindo da mesma forma. Por conta disso, às vezes é motivo de piadas.

Diversas hipóteses foram apresentadas por conta do apelido dele. Como não gosta delas, não escrevo nenhuma.

É uma criatura alegre, cuja simplicidade no ser e no agir deveria ser seguido por muitos nesta academia. Em sua simplicidade de vida nos ensina sem precisar de giz. Até seus erros são para nós aulas daquilo que não devemos ser. É uma boa pessoa. Independente de seus defeitos é merecedor de meu respeito e consideração.

Para quem não o conhecesse, este é o senhor Francisco Gonçalo Sobrinho ou, como muitos o conhecem, simplesmente seu “Chico Lepo-lepo”. Na simplicidade e humildade dele algumas pessoas desta academia deveriam se inspirar, principalmente quando tratam os outros. Muitos resultados de ações recentes, cujas avaliações ‘científicas’ hoje apontam em outras direções, seriam diferentes se os atores se espelhassem na singeleza e respeito deste nobre cidadão.

Aquele que talvez seja o menor na Academia, quem sabe seja quem mais tem a ensinar em termos de vida e no trato com outros seres humanos. Talvez resida nesta espécie de metáfora aquilo que Cristo disse com relação de que os humildes herdaram o reino dos Céus. Os outros nem mesmos os reinos da terra, pois não os sabem conquistar e, se os tomam, não os sabem conservar.



Escrito por Régis às 17h25
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